INTRODUÇÃO

Existe um provérbio italiano que diz: “No fim do jogo, o rei e o peão vão para a mesma caixa“; este provérbio nos lembra de algo que não escolhe idade, cor, sexo, religião ou posição social; algo que está além da nossa limitação, mostrando nossa falibilidade e fragilidade e que ninguém, absolutamente ninguém pode escapar (salvo os que fizerem parte da geração do arrebatamento): da morte.

Túmulo antigo

Assunto mui temido, pouco discutido e vergonhosamente ignorado pela grande maioria, é o que será tratado nesta lição.

Diante de uma sociedade imediatista e materialista, pouco se comenta, inclusive nos púlpitos, sobre a morte. Fala-se muito de vida, mas quase ninguém fala que a vida aqui é limitada, regressiva e finita. Com os olhos e o coração nas coisas materiais, muitos cristãos e não cristãos, estão aquém sobre o assunto “MORTE”, e esta gera muito desespero e aflição quando chega de repente.

Paulo disse certa vez: “Se esperamos em Cristo somente nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.19).

Wesley explica este versículo assim: “Isso quer dizer: se olharmos para nada além do túmulo; mas se nós temos uma divina evidência das coisas não vistas, tivermos uma esperança plena da imortalidade, se nós hoje experimentarmos os poderes do mundo vindouro e ver a coroa que não desaparece, então, apesar de todos as provas do nosso presente, nós somos mais felizes do que todos os homens.”

Vejamos então. Vamos ao estudo.

O QUE É A MORTE

Conceito

Segundo o comentarista da lição, conceituar a morte é uma tarefa muito difícil, além de complexa, porém, Orlando Boyer define morte sucintamente e com muita propriedade: “Cessar de viver“.

Pearlman também diz o seguinte sobre o assunto: “A morte é o primeiro efeito externo ou manifestação visível do pecado, e será o último efeito do pecado, do qual seremos salvos (Rm 5.12; 1Co 15.26)”.

Norman Geisler também disserta sobre o assunto dizendo: “A Bíblia descreve a morte como o momento em que a alma deixa o corpo. Por exemplo, em Gênesis, 35.18 fala, a respeito da morte de Raquel, ‘que saiu-lhe a alma (porque morreu)’. Da mesma maneira, Tiago ensina: ‘o corpo sem o espírito está morto’ (2.26). Uma vez que a alma é o princípio da vida que anima o corpo, resulta que, quando a alma deixa o corpo, o corpo morre“.

Geisler acrescenta que existem duas mortes: a real e a legal. A morte real é quando a alma deixa o corpo, e a morte legal é determinada pelos índices do funcionamento orgânico, conhecida como morte clínica.

Resumidamente, Jó 18.14 expressa o que é a morte: “rei de terrores”. Você tem medo da morte? Ela é um terror na sua vida? Vejamos o que a Bíblia fala à respeito.

O que as Escrituras dizem?

As Escrituras dizem que a morte é o salário do pecado (Rm 6.23).

A primeira referência à morte na Bíblia está em Gn 2.17, traz orientação básica para compreensão bíblica da morte. Aqui a morte é a punição pelo pecado, ou seja, a morte em sua totalidade é resultado do pecado. Note que a “morte natural” não foi destinada ao homem no princípio, porque Deus determinara transferi-lo para um modo de existência superior através de novos processos que não implicavam em corrupção, destruição ou violência. As palavras “no dia” não supunham a morte dentro de pouco tempo, apenas que o momento da queda marcaria o início do reino da morte na vida humana (Rm 5.12-21). Só pela misericórdia divina se deve o fato de não sobrevir ao homem a morte imediata. E essa morte não era apenas material, o pecado trazia também a morte da alma, de sorte que só graças ao Espírito Santo pudéssemos reviver para Deus.

Mas porque Deus colocou à prova o primeiro casal, sabendo que poderiam ceder? Hoff diz que “para os filhos de Deus as provas são oportunidades de demonstrar-lhe amor, obedecendo a Ele. Também constituem um meio de desenvolver seu caráter e santidade. Adão e Eva foram criados inocentes, porém a santidade é mais do que a inocência: é a pureza mantida na hora da tentação“.

Voltando ao texto de Rm 6.23, podemos entender que se servimos a um senhor, podemos esperar receber dele um salário. O pecado, pode ser um senhor, e ele paga um salário – a morte! Deus também pode ser um senhor, e Ele também paga um salário – a santidade e a vida eterna. Wiersbe diz que costumamos aplicar este texto aos não salvos, mas também se trata de uma advertência aos que têm a salvação. Neste versículo temos o resumo de todo o capítulo, aqui Paulo pintou a escolha em preto e branco. E a escolha é nossa – pecado e morte ou graça e vida eterna gratuita em Cristo Jesus.

É a separação da alma do corpo

Já mencionamos que Norman Geisler diz que a morte é a separação da alma do corpo, e baseia-se em Gn 35.18. Vejamos melhor este versículo.

Neste momento Raquel, que fornecera a Jacó a inspiração e o amor necessários, chegava ao fim de sua vida. Morreu dando à luz o seu segundo filho, o qual chamou de Benoni, filho da minha tristeza. Mas Jacó escolheu o nome Benjamim, filho da minha destra.

O versículo fala da alma “saindo”, que vem do termo “בְּצֵ֤את” (yâtsâ’) e quer dizer “sair de um lugar em direção à algo com um propósito”, vejamos Ec 12.7: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu“.

Corroborando este assunto, temos o apóstolo Paulo dizendo: “Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor“. Paulo está dizendo neste capítulo que a casa terrestre do homem é comparada à um tabernáculo ou tenda (passageira), mas a casa celestial à um edifício(eterna), e Paulo quando disse que “deseja antes deixar este corpo”, não estava querendo fugir desta terra e seus problemas, mas que tinha a certeza da vitória sobre a morte, por isso não tinha medo dela e estava disposto a perder a vida por amor do evangelho, pois para Paulo, segundo Wiersbe, “o céu não era apenas um destino, era a sua motivação”.

Pra finalizar, Wayne Grudem reforça a ideia de que a morte é “a cessação temporária da vida corporal e a separação entre a alma e o corpo“.

Leiamos:

Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne” (Fp 1.20-24).

A VIDA APÓS A MORTE

Talvez uma das maiores indagações do homem seja: há vida após a morte? Jó já havia feito esta pergunta: “Morrendo o homem, porventura, tornará a viver?“. Veremos nos dois testamentos o que ambos falam à respeito.

O que diz o Antigo Testamento

O Antigo Testamento deixa claro que Deus é a origem de toda a vida, e que a morte está no mundo como resultado do pecado (Gn 1.20-27). No entanto, a maioria dos israelitas olhavam para a vida com uma atitude positiva (Sl 128.25-26).

Os israelitas tinham costumes de sepultamento diferentes daqueles praticados pelos povos ao seu redor. Os túmulos dos faraós ficavam repletos de móveis e de muitos outros objetos visando proporcionar-lhes o mesmo nível de vida no além. Os cananitas colocavam uma lâmpada, um vasilhame de óleo e um vaso de alimentos no esquife de cada pessoa sepultada. Os israelitas agiam doutra forma. O corpo, envolvido em pano de linho, usualmente ungido com especiarias, era simplesmente deitado num túmulo ou enterrado numa cova. Isso não significava, porém, que não acreditassem na vida no além. Falavam da ida do espírito a um lugar que, em hebraico, era chamado Sheol ou, às vezes, mencionavam à presença de Deus (Stanley Horton).

Em Isaías 14.9-10, a Bíblia retrata que pessoas possuem algum tipo de existência no Sheol, que pode ser interpretado no sentido de vida no além. No entanto, é importante notar que o AT não ensina que todos vão ao Sheol (Sl 49.15), isto é: o sheol é personificado, como se quisesse agarrar o salmista e levá-lo para o lugar de castigo, mas Deus o redime e o salva de modo que não precisará mais ir para lá (Stanley Horton).

De acordo com o AT, Sheol era um lugar de:

  • Trevas (Jó 10.21-22; Sl 143.3);
  • Silêncio (Sl 94.17; 115.17)
  • Ausência de louvores à Deus (Sl 6.5; 88.10-12);
  • Ausência de conhecimento (Jó 14.21; Ec 9.5,10);

Merril Tenney diz que “os habitantes do Sheol não são nada mais do que uma sombra do seu primeiro ser; de fato eles são chamados ‘sombras’ ou ‘fantasmas’ (rephaim) (Is 14.9; 26.13) “.

Existe uma luta gigantesca no campo da teologia quanto ao Sheol ser um lugar tanto para o povo de Deus quanto aos que não são o povo de Deus. Alguns afirmam que no Sheol havia uma divisão em dois compartimentos onde em um deles ficavam os santos do AT, porém, segundo Norman Geisler “não existe evidência bíblica, nem fora da Bíblia, de que os espíritos dos santos do Antigo Testamento, depois da morte, tivessem ido a qualquer outro lugar, exceto o céu, entre a morte e a ressurreição“, pois ele afirma que a mesma esperança dos santos do NT (Hb 12.23), recaem sobre os santos do AT. Para confirmar esta tese de Geisler, podemos expressar a confiança e esperança de Jó:

E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Quem me dera agora, que as minhas palavras fossem escritas! Quem me dera, fossem gravadas num livro! E que, com pena de ferro, e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha. Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior. Jó 19.23-27

O que diz o Novo Testamento

Para o NT, as bases bíblicas que comprovam a existência de uma vida consciente após a morte é nitidamente verbalizada e caracterizada sobre seu principal personagem: Jesus Cristo.

Não trataremos demasiadamente este assunto aqui, apenas faremos menção de uma resposta bíblica:

Quando Jó, fez seu questionamento: “Morrendo o homem, porventura, tornará a viver?“, ele não sabia que sua pergunta, séculos depois, teria uma resposta, e uma resposta contundente e esperançosa:

Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?  Jo 11.25-26

MORTE, O INÍCIO DA VIDA ETERNA

A morte: o desfrutar da vida eterna

O comentarista da lição diz que para o crente a morte não é o fim, mas o início de uma extraordinária e plena vida com Cristo, e ele está completamente com a razão. Não farei muitos comentários, mas me utilizarei de textos de J. Packer:

Se você não pode entender a morte, então também não pode entender a vida. Qualquer filosofia que não nos ensine dominar a morte nada vale para nós. É nessa altura que os filósofos batem em retirada, vencidos, e o evangelho assume o lugar que lhe cabe. Pois o domínio sobre a morte, em certo aspecto, é o tema central do evangelho — o tema que John Owen sumariou como a morte da morte na morte de Cristo.

A ressurreição de Cristo não foi uma mera ressurreição temporária, como o foram as ressurreições de Lázaro, da filha de Jairo e do filho da viúva de Naim. “…havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre: a morte já não tem domínio sobre ele… vive para Deus” (Rm 6.9, 10). “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1.18). A ressurreição de Cristo proclamou e garantiu ambos, no presente: o perdão e a justificação para o seu povo (Rm 4.25; 1 Co 15.17), como também a co-ressurreição com Cristo, em novidade de vida espiritual (Rm 6.4-11; Ef 2.1-10; Cl 2.12, 13; 3.1-11).

Entrementes, o temor da morte física, que se origina do senso que a morte é a porta para o sofrimento e para o juízo (Hb 2.15), foi abolido para o crente. Foi arrancado o aguilhão da morte (1 Co 15.55, 56), por meio do conhecimento de que os nossos pecados foram perdoados e de que “nem morte, nem vida… nem cousas do presente, nem do porvir… nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8.38, 39).

O crente pode conceber, com razão, o dia de sua morte como uma data registrada no diário de Jesus. Chegado o dia marcado, o Salvador aproxima-se a fim de conduzir o seu servo para a luz de sua presença íntima e para uma comunhão mais achegada com Ele. Por conseguinte, morrer, por difícil e doloroso que seja em termos físicos, torna-se uma jubilosa jornada para o crente.

A comunhão com Cristo e com Deus, por meio de Cristo, uma vez que tenha início aqui na terra, jamais termina. Através da morte, através do “estado intermediário”, entre a morte e a ressurreição, e para sempre, Cristo estará com o seu povo.

Paulo declarou: “…o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2 Tm 4.6-8). Pedro exortou-nos: “Reunindo toda vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor… procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois, desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.5-7, 10, 11).

Esse é o caminho!

CONCLUSÃO

Para concluir, deixo um poemo lindo de Margaret Baxter:

Senhor, não cabe a mim saber, se devo viver ou morrer. O que me cabe é amar-Te e servir-Te, e isto alcanço por tua graça.

Se longa a vida for, eu me alegrarei por obedecer-Te por longo tempo; se curta, por que haveria de entristecer-me por voar para o dia eterno ?

Cristo não me conduz por lugares sombrios que Ele mesmo não tenha atravessado; todo aquele que adentra o reino de Deus deve trilhar o mesmo caminho.

Do meu triste queixar me despedirei e os dias pecaminosos esquecerei, quando os santos triunfantes eu encontrar e com eles os louvores de Jeová, então, cantar.

Pouco sei sobre a vida por vir, os olhos da fé não a vêem distintamente; mas, saber que Cristo a tudo conhece é para mim o suficiente, e com Ele eu estarei.

Em Cristo, tenha paz e esperança, porque Ele é a ressurreição e a vida.

Deus vos abençoe!