INTRODUÇÃO

Já vimos em aula anterior sobre a morte (vide A morte para o verdadeiro cristão); como é a vida após a morte e a esperança daqueles que morrem.

Hoje, falaremos algo também relacionado à morte, porém, não sobre quem parte para a eternidade, mas sobre quem fica.

O assunto hoje é sobre a viuvez, que segundo o próprio comentarista da revista, caso não seja devidamente tratada, pode trazer sérios problemas sociais, emocionais e espirituais.

Viuvez é um tema social e muito abordado na Bíblia. Isso porque nos tempos bíblicos, a viuvez, principalmente no caso da mulher, fazia com que sua condição social e econômica sofresse drasticamente em virtude do contexto social da sua época.

A grande maioria das viúvas daquela época, eram pobres. Na Bíblia encontramos a referência em Tg 1.27 que diz: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo“.

Vamos ao estudo do tema.

O CONCEITO DE VIUVEZ
Definição

A viuvez na Bíblia, é quase toda referenciada à mulher, devido à fatores sócio-culturais.

Encontramos em toda a Bíblia, 79 ocorrências ao termo “viúva”, sendo 53 no hebraico (almanah) e 26 em grego (chera). Ainda no hebraico, algumas variações são encontradas, como almanuth que significa viuvez ou almon que tem o mesmo significado.

Segundo Buckland, “A viuvez, assim como a esterilidade, era como que qualquer coisa vergonhosa e censurável em Israel (Is 54.4)“.

Mas o que vem a ser viuvez?

O comentarista da lição nos dá uma definição: “A viuvez é o estado social e psicológico de um cônjuge quando da morte do outro“. O estado de viúvo (quando a esposa morre) ou viúva (quando o esposo morre), neste caso, só permanece quando não há um novo casamento.

O grande problema da viuvez, é a solidão ocasionada pela falta da pessoa que há muito tempo esteve ao lado do enlutado.

Solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo que as transforme.

Solidão não é o mesmo que estar desacompanhado, portanto é distinto de solitude, que é o estado de se estar sozinho e afastado das outras pessoas, e geralmente implica numa escolha consciente.

Muitas são as causas da solidão, sendo a viuvez uma das mais marcantes.

A solidão traz consequências físicas e psicológicas ao indivíduo:

  • Problemas cardíacos;
  • Pressão alta;
  • Desenvolvimento de câncer;
  • Distúrbios mentais;
  • Sono ruim;
  • Estresse;
  • Dependência química

Por isso, a solidão na grande maioria das vezes, conduz o(a) viúvo(a) à um estado de desespero, ansiedade, mas a Palavra de Deus nos adverte que o Senhor cuida dos seus. Constituía dever do rei antigo proteger e defender os desamparados (isso inclui viúvo ou viúva), mas muitos falhavam nisso, e pelo contrário, tornavam-se opressores (David Dockery), porém “O SENHOR guarda os estrangeiros; sustém o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos ímpios” (Sl 146:9).

Exemplos nas Escrituras

As Escrituras mencionam vários casos de viuvez, alguns com entrega total ao estado de viuvez outros com casos de superação. Vejamos dois casos de superação e seus exemplos para o êxito.

A profetiza Ana (Lc 2.36-37): As culturas judaica e greco-romana, geralmente viam as viúvas que não se casavam novamente, como piedosas e fiéis. Existe na cultura judaica uma mulher por nome de Judite que viveu como viúva até a sua morte, aos 105 anos. Ana, assim como Judite, também era uma viúva, da tribo de Aser, filha de Fanuel.

A tribo de Aser, que significa feliz, afortunado, abençoado, chegou a possuir 53.400 homens de guerra, mas nunca ocupou um lugar proeminente na história de Israel, pois da tribo nenhum líder importante é conhecido, e o único aserita que apresenta uma certa importância, foi justamente Ana, que louvou a Deus na apresentação de Jesus no Templo.

Ana, além de ser da tribo de Aser, recebe o título de profetisa. Embora no Antigo Testamento estivessem incluídas as profetisas, elas eram menos proeminentes que os profetas masculinos na tradição judaica deste período. O nome Ana é o nome hebraico para Hannah (1 Sm 1.2). No AT temos também, Débora (Jz 4.4) e no NT, além de Ana, ainda temos os exemplos das filhas de Filipe (At 21.9).

Assim como Simeão, Ana representava o que havia de melhor do Antigo Testamento em termos de judaísmo.

Ana era uma mulher que havia ficado viúva depois de 7 anos de casada e que estava viúva há 84 anos. Supondo-se que ela tenha se casado com 14 anos, esta teoria lhe daria a idade de 105 anos de idade, igualmente à Judite da tradição judaica.

Era uma mulher devota e consagrada. A frase “não deixava o templo”, dificilmente significa que ali ela tinha sua residência, mas que passava ali todo o seu tempo, adorando a Deus. Nisso temos um exemplo de como superar a viuvez: buscar a Deus constantemente.

A viúva de Sarepta (1Rs 17): Em um momento de seca e fome sobre a terra, em virtude da profecia do profeta Elias, Deus envia o profeta à um lugar chamado Sarepta.

Sarepta era uma cidade fenícia, conhecida pelos seus artigos de vidro e seus corantes. Hitchcock diz que seu nome pode também sinificar uma “loja de ourives”. Ficava situada entre Tiro e Sidom, e hoje é representada pela aldeia árabe de Sarafand, no promontório, alguns quilômetros ao sul de Sidom.

Elias, antes de ir à Sarepta, passou cerca de um ano em Querite, onde foi alimentado por corvos. Agora que seu tempo em Querite terminou, Deus o envia à um território gentio, próximo à Sidom, terra natal de Jezabel, para viver em território inimigo. Em Sarepta, Deus instruiu Elias a morar com uma viúva, e as viúvas estavam entre as pessoas mais necessitadas da terra.

Lembre-se, quando Deus nos envia, devemos obedecer e deixar o resto ao encargo dEle, pois não vivemos de acordo com explicações humanas, mas sim pelas promessas divinas. Disse Watchman Nee:

Dada a nossa tendência de olhar para o balde e esquecer a fonte, Deus com frequência muda seu meio de suprir as necessidades, a fim de manter nossos olhos fixos na fonte.

Os recursos da viúva eram escassos: um pouco de azeite em um frasco, um punhado de cevada em uma vasilha e alguns gravetos para fazer fogo. Mas mesmo diante da situação terrível que a mulher estava passando, ela era perseverante.

É provável que Elias tenha ficado com a viúva por uns dois anos, e durante este tempo a viúva e seu filho certamente deixaram a idolatria e depositaram sua fé no verdadeiro Deus vivo. A mulher, não se abateu pelo estado precário de sua viuvez, mas alegrou o coração pelo privilégio de servir um profeta do Deus vivo. E isso foi o diferencial na vida daquela mulher, louvar e honrar a Deus independente das circunstâncias.

Jesus disse:

E, estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos deitavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, deitou duas pequenas moedas, que valiam meio centavo. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro; Porque todos ali deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento. Mc 12.41-44

O ASPECTO SOCIAL DA VIUVEZ
O desamparo na viuvez

Se por um lado os que estão no estado de viuvez devem servir e honrar à Deus independente das circunstâncias, nós não podemos desamparar os que estão passando por essa situação. Paulo escrevendo à Timóteo disse:

Se algum crente ou alguma crente tem viúvas, socorra-as, e não se sobrecarregue a igreja, para que se possam sustentar as que deveras são viúvas. 1 Tm 5:16

Paulo estava aqui mencionando não a responsabilidade da igreja, mas daqueles que possuem alguma viúva ou viúvo sob seus cuidados, ou seja, mãe/pai, avós ou qualquer outro que se enquadre na responsabilidade pessoal de cada cristão. A Bíblia de Estudo de Genebra acrescenta dizendo que as despesas com estas pessoas no estado de viuvez, não devem ser de responsabilidade da Igreja.

Isso se enquadra para àqueles que tem condições financeiras de amparar seus parentes em condição social de viuvez, é uma obrigação de governança sobre as pessoas.

Este princípio governante recai sobre o versículo 8 deste mesmo capítulo: “Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel“.

O amparo da Igreja

Embora acima mencionamos a responsabilidade daqueles que têm condições e possuem parentes viúvos, a Igreja também tem a sua responsabilidade com estes desta classe social. Muitos são os textos que advertem à Igreja à cuidar destes irmãos (Dt 24.1 9; 26.1 2,1 3; SI 67.6; Is 1.1).

Enquanto alguns irmãos possuíam condições de cuidar de seus viúvos, isso facilitava a Igreja utilizar seus recursos para cuidar daqueles que não tinham ninguém para os amparar.

Paulo deixa claro que as viúvas devem ser honradas, mas as verdadeiras viúvas. Segundo John Gill e Wiersbe, a verdadeira viúva, que necessitava da ajuda da Igreja, era:

  • Não divorciada;
  • Não era viúva do irmão;
  • Que ainda não tinha amparo algum;
  • Uma cristã irrepreensível;
  • Tinha pelo menos 60 anos de idade;
  • Tinha um bom histórico matrimonial;
  • Recomentada pelo testemunho de boas obras.

Este amparo não pode ser meramente material, mas sim atingir todas as esferas do homem: social, psicológico e espiritual.

CONCLUSÃO

O comentarista da lição inicia a conclusão citando Tg 1.27 que diz:

A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações

Religião neste versículo, vem do termo thréskeia, e seu significado vai além da expressão religiosa externa mediante ritual, liturgia e cerimônias. É também adoração, no sentido de dedicação exclusiva aos serviços do culto. O que Tiago está dizendo aqui é como Barclay disse: “O mais belo ritual e a mais excelente liturgia que podem oferecer a Deus é o serviço aos pobres e a pureza pessoal“.

Dentre estes pobres, estavam as viúvas. Tiago estava simplesmente condenando aquilo que os profetas tinham condenado desde muito tempo atrás (Zc 7.6-10; Mq 6.6-8).

Barclay ainda diz: “Em todos os tempos o homem buscou fazer do ritual e da liturgia um substituto do sacrifício e do serviço. Fez esplêndida a religião dentro da Igreja a preço de desatendê-la fora da Igreja”.

Uma vez que os órfãos e viúvas não tinham assistência na sociedade antiga, eram exemplos típicos daqueles que precisavam de ajuda.

Finalizo com as palavras de James H. Ropes:

Esta não é uma definição de religião, mas uma declaração do que é melhor do que os atos de adoração exteriores. Tiago não pretendia reduzir a religião à uma pureza negativa de conduta suplementada por visitas de caridade

Que o Senhor ajude a todos os que estão passando pela viuvez, lembrando-os que na Bíblia temos exemplos de viúvos que triunfaram, como:

  • O patriarca Abraão
  • A viúva de Sarepta;
  • Noemi e Rute
  • Ana, a profetisa
  • Maria, a mãe de Jesus

Que o exemplo desses grandes homens e mulheres inspire a vida de todos quantos se encontram no estado de viuvez a vivenciarem essa fase de suas vidas com a beleza e a graça com as quais Deus deseja que vivam.