Mateus, Apologético, Teológico

Eunuco: o que é?

Estava assistindo um vídeo na internet onde três cristãos estavam debatendo com três defensores do movimento homossexual, sobre o tema pejorativo “cura gay”, e no meio do debate, uma pastora gay de uma igreja inclusiva citou o texto de Mt 19.12, onde Jesus fala sobre os eunucos, para argumentar sobre seu modo de vida, ou seja, modo homossexual de viver.

Quero antes de continuar, deixar claro que não sou homofóbico, pois homofobia, segundo o dicionário Michaelis é “Preconceito contra os homossexuais. Ódio aos homossexuais, muitas vezes levando à violência física“. Portanto, reitero dizendo que não sou preconceituoso e muito menos tenho ódio de quem optou pela prática homossexual, afinal parto do seguinte princípio: “vive quem quer como quer, respeitando os direitos individuais alheios e as normas de conduta de cada comunidade“.

Eunuco era um oficial do sexo masculino da corte ou da família de um governante, frequentemente alguém que tinha sido castrado. Podiam significar “oficial” ou “camareiro”, embora nem todos os funcionários fossem eunucos.

O significado “alguém castrado” era secundário, porém, os castrados eram os preferidos dos governantes, pois estes funcionários teriam contínuo contato com as mulheres da família deste governante. Talvez a palavra tenha advindo de saresi, um termo Acadiano que significa “aquele que é cabeça do rei“, indicando um companheiro ou confidente.

Orlando Boyer define sucintamente eunuco como sendo:

um homem privado de sua virilidade.

Heródoto menciona que os eunucos eram muito procurados nos países do Oriente, por serem pessoas dignas de confiança (Her. viii.105). A história antiga mostra-nos que não era incomum confiarem-se elevados cargos aos eunucos, tal como o tesoureiro da rainha Candace.

Na lei mosaica, os eunucos eram excluídos de qualquer culto público (Dt 23.1), pois as práticas que envolviam mutilações, eram praticadas no paganismo como forma de reverência prestada aos deuses pagãos.

O judaísmo reconhecia apenas duas classes de eunucos: os que foram feitos pelo homem (saris ‘adam), ou seja, foram mutilados, e os naturais (saris hamah), aqueles que já nasceram assim, tais, por motivo de algum defeito congênito. Segundo o Talmude Babilônico dos judeus, esses eram chamados “eunucos desde que viram o sol“, isto é, desde o momento do nascimento.

Jesus, no texto em discussão (Mt 19.12), acrescenta outra classe: “os que castraram-se a si mesmos“. O judaísmo não teria encarado com aprovação esse terceiro tipo; e esse é um dos pontos onde o Senhor Jesus e o apóstolo Paulo se afastaram da doutrina judaica ordinária.

Vejamos então, o texto usado como argumento pela pastora gay (Mt 19.12).

Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.

Jesus aqui menciona 3 tipos de eunucos: 1) os nascidos assim; 2) os mutilados pelos homens; 3) os que optaram por ser.

O capítulo inicia com um assunto, que, assim como era polêmico na época o é hoje também: o divórcio. Os líderes religiosos já haviam tentado Jesus anteriormente, porém sem sucesso, para pegá-lo em suas armadilhas, usando perguntas sobre o sábado e sobre sinais. Agora estavam tentando-o novamente, dessa vez com este tema extremamente polêmico.

Existiam duas escolas no judaísmo que tratavam sobre o assunto, cada uma com uma interpretação totalmente oposta da outra. A escola de Hillel e a escola de Shammai.

A escola de Hillel: O nome desta escola deriva-se de seu fundador, um mestre e rabino judeu do primeiro século da era cristã. A tradição diz que ele era descende de Davi, nascido na Babilônia, migrando para a Palestina com 40 anos de idade. Defendia uma interpretação mais liberal da lei. Isso fez com que sua filosofia sobre o divórcio, permitisse o mesmo por qualquer bom motivo, por qualquer razão, como por exemplo, se a esposa deixar queimar a comida.

A escola de Shammai: Ao contrário da escola de Hillel, esta tinha uma linha bem mais conservadora sobre a Lei. Shammai afirma que só é permissível o divórcio em caso de adultério. Esta escola prevaleceu até o ano 100 d.C., quando começou a perder espaço para Hillel.

Naquele momento em que Jesus estava sendo testado, existiam presentes adeptos das duas escolas, e invariavelmente, todos esperavam que Jesus ficasse do lado de uma das duas, decepcionando os adeptos da outra. Mas Jesus, ao invés de ficar na interpretação errônea da lei, voltou ao princípio, lembrando que o casamento veio antes da lei, instituído no Éden.

A resposta de Jesus, remontou a originalidade do casamento, voltou lá na origem de todas as coisas – Adão e Eva. Adão era pra Eva e Eva era pra Adão, não havia ninguém mais com quem um ou outro pudesse se relacionar. Portanto, este primeiro casal serve de modelo para o casamento. Alan Hugh M’neile disse:

Cada casal é uma cópia de Adão e Eva, e portanto, sua união não é menos indissolúvel.

Assim, pois, Jesus estabelece o princípio de que todo divórcio é mau. Portanto, devemos destacar desde o começo que não é uma lei: é um princípio, o que é algo muito diferente. E deixa claro que não estava do lado de nenhuma das duas escolas, pois abriu concessão para o divórcio apenas em caso de “infidelidade conjugal”, e diga-se de passagem que concessão não é obrigatoriedade.

Esta doutrina agora sobre o divórcio com certeza assustou os discípulos, a ponto de chegarem a conclusão de que não convém casar-se. E neste momento é que Jesus diz: “Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido” (Mt 19:11). Jesus está dizendo que nem todos estão aptos a viver sem o casamento.

É aqui que Jesus diz quem são os que podem receber esta palavra: os eunucos de nascença, os feitos eunucos pelos homens e os que se tornaram eunucos por causa do Reino de Deus.

Sendo assim, algumas pessoas não devem se casar por causa de problemas físicos ou emocionais congênitos. Outros não devem se casar por causa de suas responsabilidades para com a sociedade – aqueles que foram feitos “eunucos pelos homens” (Mt 19:12). Uma filha ou filho único que deve tomar conta de seus pais idosos pode ser um exemplo dessa categoria. Outros, permanecem solteiros para melhor servir ao Senhor (1 Co 7:7).

Portanto, eunuquismo não tem nenhuma relação com homossexualidade.

8 Comments

  1. Luana

    Muito esclarecedor este estudo . Apreciei!

  2. Revisando a literatura médica e cientifica, neste caso a teologia não contribui muito, é possível um homem não ter libido ou desejo sexual por mulheres , sem que necessariamente precise ser castrado para isto. È só observar os fatos.Chamariamos um homem assim do que

    • Pb. Daniel

      Prezado Davidson, graça e paz a você.

      Em primeiro lugar, agradeço pela visita ao site e pelo comentário sobre o assunto proposto.

      Quero reiterar que os artigos aqui redigidos são de cunho puramente teológico ou similares e nunca com o intuito de ofender ou denegrir alguém.

      Quanto à sua pergunta, a Bíblia diz que “Macho e Fêmea os criou” (Gn 1.27). Se fosse pra responder a sua pergunta, diria que seria chamado homem, simplesmente, homem.

      Quanto ao assunto libido, tem-se que mencionar que o mesmo não refere-se apenas à sexo ou desejo sexual, e que a teologia sim, ajuda e muito no contexto do termo, haja vista que Santo Agostinho mesmo definiu três tipo de desejo (libido). A psicologia ajuda muito nisso também, pois Freud explica que libido não está estritamente relacionada apenas com a sexualidade, mas abrange várias áreas da vida, e no que tange à área sexual ele define libido como “o impulso vital para a auto-preservação da espécie humana”.

      Como você mencionou “literatura médica e científica”, se possível e se tem a resposta para sua própria pergunta, por gentileza, nos esclareça e nos cite as fontes mencionadas para que possamos, assim como o irmão, adquirir maior conhecimento sobre o assunto.

      Fique na paz!

  3. Levi

    Nenhuma definição atual faz jus a tradução da palavra “eunuco”, pois a tradução literal é: “leito preservado”, ou seja, um que homem que preservou seu leito, sua virgindade, ou que faz a guarda do leito de outrem. Podemos entender aqui como um oficial, um camareiro, um guarda que pode ou não ser castrado.

  4. Ester Soares

    Esclarecedor, objetivo e envolvente o texto, muito bem escrito. EE

    • Pr. Daniel Cochoni

      Obrigado Ester pelas palavras.
      Isso nos motiva a continuar.

  5. krlos

    Concordo plenamente. Devemos respeitar a condiçao sexual de ualquer pessoa, entretanto, ente o pensamento humano e a vontade de Deus; devemos ficar com os principios elementares do evangelho do Reino.

  6. Patrícia

    MT bom

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