Lições Bíblicas | 2º Trimestre de 2012 | As sete cartas do apocalipse | Lição 8 : Filadélfia, a Igreja do amor perfeito

INTRODUÇÃO

A Igreja de Filadélfia foi reconhecida por aquilo que as igrejas de Éfeso e Tiatira não possuíam como deviam: o amor. Enquanto Éfeso praticava um amor “frio”, Tiatira esbanjava um amor imperfeito, tolerante com o mal. Diferentemente destas duas igrejas, Filadélfia, segundo o comentarista da lição, é chamada de “A Igreja do Amor Perfeito”.

Merril Tenney afirma que o amor é fundamental na verdadeira religião, ligando harmoniosamente a deidade e os adoradores, e a revelação da deidade como o Deus de amor é uma marca que distingue as religiões judaica e cristã.

Jesus resumiu os 10 mandamentos em 2 que falam de “amor”. Depois Ele mesmo disse: “Destes dois mandamentos dependem a Lei e os Profetas” (Mateus 22:40).

Paulo declarou o amor como sendo a maior das graças cristãs (1Co 13:13). João declarou que o próprio Deus é amor e que dEle o amor emana (1Jo:4.7s).

O amor é um pré-requisito para ser um bom cidadão, um bom vizinho, um bom marido, uma boa esposa, um bom filho e um bom cristão.

Filadélfia não era tão importante, nem tão rica, mas possuía a maior das graças cristãs (1Co 13:13): amor. Um amor que tira forças da fraqueza, e da pobreza arranca bens eternos que beneficiam o mundo todo.

FILADÉLFIA, A CIDADE DO AMOR FRATERNAL

A história de Filadélfia

Filadélfia foi uma cidade lidiana fundada por Átalo Filadelfo II, rei de Pérgamo. Foi estabelecida para ser um grande mercado de vinho produzido em toda a circunvizinhança, onde a terra era muito fértil. Recebeu o nome de Filadélfia por Eumenes, irmão mais velho de Átalo, devido à fidelidade e devoção de Filadelfo (nome empregado à este homem pelo seu amor fraternal por Eumenes) à seu irmão mais velho.

Tornou-se conhecida pelo seu vinho de grande qualidade e por suas moedas que traziam a imagem de Baco (deus grego conhecido também como Dionísio, o deus do vinho e “frutificador”. Veja mais referências clicando aqui ). Na cidade possui também uma bela nascente de água natural.

O nome de Filadélfia expressa seu próprio significado: “amor fraternal”. Holman e Hitchcock trazem ainda uma outra significação para a palavra: “amor de um irmão”.

Devido à grande quantidade de terremotos que ocorriam na cidade, seus habitantes (que já eras poucos por conta desta situação) passaram a viver fora da cidade, em tendas. Em 17 d.C. a cidade ficou conhecida na história romana por um grande terremoto que devastou o extremo sudoeste da Ásia Menor, e cuja mesma foi destruída. Tácito afirma que Filadélfia foi a terceira cidade a receber assistência do senado romano.

A cidade recebeu ainda outros nomes durante a sua história. Neocesaréia, Flávia, Decápolis e até “Pequena Atenas (devido à quantidade de templos na cidade)”, porém nenhum destes nomes conseguiu suplantar o nome Filadélfia.

Hoje a cidade tem o nome de AllaShehr “A cidade de Deus”. A grande marca da cidade atual é a sua fabricação alcaçuz.

Foi nesta cidade que viveram os cristãos que não receberam nenhuma repreensão do Senhor através da carta enviada por João no livro das Revelações.

A Igreja em Filadélfia

A Enciclopédia Católica afirma que o cristianismo chegou àquele local na época apostólica. Acreditamos ser Paulo o arauto do Senhor a evangelizar àquela pequena nação (At 19:10).

A menção “pequena força” no versículo 8, talvez esteja se referindo à quantidade pequena de membros daquela congregação, acompanhando a quantidade de habitantes da cidade.

Os cristãos em Filadélfia encontravam-se em uma situação semelhante à descrita por Paulo em 1Co 16:9 – oportunidades e obstáculos. Essa estimada igreja, em virtude de sua fidelidade, não via os obstáculos, mas via somente as oportunidades.

A fidelidade, pode até nos trazer dores, mas não são comparáveis às recompensas que esta mesma fidelidade gera. Era isso o que a igreja filadelfiana estava experimentando neste momento que recebeu esta carta: recompensa.

Acredita-se que Demétrio (talvez o mesmo elogiado por João em 3Jo 12), tenha sido o pastor destinatário da carta

A IDENTIFICAÇÃO DO MISSIVISTA

Nesta carta, Jesus é apresentado por algumas características: Santo, Verdadeiro e Detentor da Chave da Casa de Davi. Vejamos

Jesus, o Santo de Deus (Ap 3.7)

Hakadosh quer dizer “o Santo”. Neste ponto refere-se à Jesus, já em Ap 6:10 refere-se ao Pai. Na realidade, este é o título, descrição e nome de Deus (Isaías 6:3; Isaías 40:25). Agora este título é atribuído ao Ressuscitado. Isso equivale dizer que Jesus compartilha a vida e o ser de Deus. Jesus mesmo disse: “Eu e o pai somos um” (João 10:30)

As principais palavras bíblicas utilizadas para o termo “santo” são qadosh e qodesh, no AT, e hagios, no NT, e ambas trazem no seu bojo o mesmo significado: separação ou consagração de uma pessoa ou coisa para uso divino.

Aqui Jesus é designado como “o Santo”, e que é nEle em quem a santidade habita essencialmente e que Ele é o responsável por emanar esta santidade. Esta referência à Cristo é utilizada em vários momentos no NT, vejamos: Lc 1:35; At 2:27; At 3:14.

O termo não só significa que Jesus é santo como Deus ou igual ao seu Pai em santidade, mas também, como homem, em que sua natureza é livre do pecado original, sua vida livre de transgressões, suas doutrinas eram puras e santas assim como todas as suas obras, e como mediador, Ele é a causa e autor de santidade ao seu povo.

A palavra utilizada aqui refere-se não somente ao que faz o bem, mas ao que se separa do mal. Jesus era extremamente separado do mal e de toda a maldade, e escreve a quem Ele vislumbra estar seguindo seu exemplo.

Verdadeiro (Ap 3.7)

Aquele que é fiel e digno de confiança. A fonte de toda a verdade. Do verbo grego alethinos distinguindo-o dos falsos deuses e daqueles que dizem que são, mas não são. Ele é a própria verdade (Jo 14:6).

Vincent comenta que o termo não está relacionado somente com o verdadeiro em contraste com o falso ou algo rotineiramente verdade, mas que exprime a realização completa de uma ideia em contraste com a sua realização parcial, ou seja, Moisés deu o pão, mas o Pai entregou-nos o “verdadeiro” pão. Israel era uma videira da plantação de Deus (Salmos 80:8), Cristo é a videira “verdadeira” (Jo 15:1).

“Quando nos defrontamos com Jesus Cristo não nos estamos defrontando com uma sombra ou aparência da verdade, mas com a própria verdade. Não vemos nEle uma imitação da vida, mas com a Verdadeira Vida. NEle não temos um substituto da divindade, mas sim a própria Divindade em pessoa. Ao nos encontrarmos com Jesus Cristo chega ao fim nossa busca da verdade; os vagos perfis de Deus se convertem em algo do passado; nEle temos a verdade, a realidade, o próprio Deus.” (William Barclay)

A chave da casa de Davi

Os povos do mundo antigo, consideravam que a entrada nos reinos de destino espiritual, eram através de portas, e os deuses, anjos ou demônios eram detentores das chaves para estas portas.

Este conceito (espiritual) pode ser visto em Mateus 16:19, onde Jesus diz à Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus”. O plural “chaves” reflete uma crença judaica de que Deus guardava quatro chaves em sua mão: da chuva, da concepção, da ressurreição e da colheita. Já o inferno tinha muitas chaves, porque acreditavam que havia muitas portas. O Rabino Aqiba fala de um tempo quando Deus dará a Miguel e a Gabriel as chaves para abrir 40.000 portas do inferno.

Vemos, portanto, que a utilização do termo “chave” é muito significativo para o povo judaico, e consequentemente o é para nós neste momento.

O termo utilizado em Apocalipse “Chave da casa de Davi”, provavelmente faz-se alusão à Isaías 22:22, onde Eliaquim, filho de Hilquias, recebe a autoridade de controlador da casa de Davi. O versículo de Isaís diz: “E porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro, e abrirá, e ninguém fechará; e fechará, e ninguém abrirá.” Veja o versículo em Apocalipse: “…o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre.”. Para entendermos o significado dos versículos, disponibilizaremos o comentário de Bright:

A chave, levada pendurada nos ombros, era o símbolo da autoridade do mordomo chefe de admitir ou negar acesso ao rei

Chave portanto, é sinal de autoridade, confiança, poder e conhecimento.

Este termo foi também designado ao Senhor, pois Jesus possuía o trono de Davi e este reino estava sobre Ele. João, deve ter sido inspirado por Deus focalizando Isaías 9:6 para extirpar qualquer dúvida sobre o que é santo, verdadeiro e que tem a chave de Davi.

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” Isaías 9:6

Só Jesus, e mais ninguém, pode nos dar acesso à nova cidade de Davi (Nova Jerusalém) e o acesso ao Rei (Jeová). Mas Jesus não é a chave, Ele é a porta. Mas como Ele tem a chave, Ele pode nos dar. Sabe que chave é essa: a nossa fé. Jesus é o autor e consumador da mesma.

UMA IGREJA AMOROSA, PACIENTE E CONFESSANTE

Uma igreja amorosa, indubitavelmente será uma igreja amada. Pelos homens e principalmente por Deus.

Jesus após se apresentar, traça as características desta Igreja tão fraternal. Vejamos:

Amar é a maior das obras

Já mencionamos em artigos anteriores que os motivos pelas quais realizamos a obra do Senhor, são mais importantes para Ele do que as obras propriamente ditas, haja vista a repreensão que Éfeso recebeu do Senhor por conta disso.

O que movia a igreja de Filadélfia, era o amor. Esse amor, levava a Igreja a ser uma cumpridora da Grande Comissão (Mt 28:19-20).

Força na fraqueza

O termo “tendo pouca força”, está se referindo à quantidade pequena de membros, sendo assim, possuíam pouca influência política na cidade. Aqui eu entendo que a congregação não precisa ser grande para ser uma tocha, ela precisa somente ser fiel.

O Senhor se alegrou com eles, pois conhecia as “suas obras”, e mesmo sabendo que esta congregação era pequena, fraca e “rejeitada”, não estava deixando de aproveitar a “porta aberta” para evangelizar.

Essa igreja entendeu bem o que Paula ensinou: “Quando estou fraco, então sou forte” (2Co 12:10)

Amorosa perseverança

A perseverança, dava-se do fato de esta igreja resistir às investidas daqueles denominados “da sinagoga de satanás”.

David Stern, ao comentar sobre estes “judeus, que não são judeus”, afirma que João está se referindo à gentios que fingem ser judeus, e negligenciam a Torá, trazendo portanto muitos prejuízos ao judaísmo. Stern ainda lamenta que muitos comentaristas entendem estes “judeus”, como realmente judeus, mas ele argumenta que os mesmos estão equivocados.

Em seu livro, Apocalipse versículo por versículo, Severino da Silva traz uma excelente explicação sobre o assunto:

Nas igrejas de Esmirna e Filadélfia, os gnósticos tinham fundado duas sinagogas. No dizer dos tais gnósticos estas sinagogas eram o “lugar” do auge, de todo o saber (deles). Diante dos olhos divinos, elas foram e são classificadas: “de sinagogas de Satanás” (2.9 e 3.9). “Os chefes gnósticos, segundo se diz, degradavam a pessoa de Cristo e sua missão ; negavam também a possibilidade da encarnação do Verbo, Jesus, o filho eterno (fc. Jo 1.14); negavam a expiação pelo sangue de Cristo; tinham ainda um ponto de vista deísta relativamente a Deus; negavam o verdadeiro destino humano, ou seja, a participação final na natureza do Verbo (1 Jo 2.23). João, diz que, tais elementos são seguidores do Anticristo e, acrescenta: “qualquer” que negue o Filho ou a encarnação do Verbo, é mentiroso. Neste versículo, pelo menos, o termo usado em sentido lato e indefinido. “Qualquer” que negue a doutrina da encarnação do Verbo (humanidade) de Cristo tem a atitude do Anticristo. Os gnósticos, que se tinham deixado levar pela escravidão de Satanás, resolveram abandonar suas casas – e fundarem duas sinagogas na Ásia Menor: Uma Esmirna, e outra em Filadélfia.

Porém, o mais importante não é saber quem eram os “judeus” da Sinagoga de Satanás, mas sim o que o Senhor prometeu à Igreja com relação à eles:

Um dia, presumivelmente ao estabelecer-se o reino messiânico, eles (os da sinagoga de satanás) serão obrigados a reconhecer que estes cristãos desprezados são na realidade os companheiros do Filho do Homem, os herdeiros do reino de Deus.

Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Filipenses 2:9-12)

FILADÉLFIA NOS ÚLTIMOS DIAS

A iminência da volta de Jesus

“Venho sem demora”. Talvez uma frase que mais nos impacta. Nos leva a questionar: “Quando?”. Segundo Barclay, esta frase possui dois significados:

  1. Uma advertência para os despreocupados;
  2. Um consolo para os oprimidos.

Por isso o termo aqui, implica dizer que Jesus está afirmando: “Em breve voltarei com consolo e recompensa para os meus fiéis e juízo para os meus adversários”.

Vigiemos, porque diante de tudo o que temos visto, pouca coisa falta para que tudo se cumpra e Jesus volte para buscar a sua igreja. O tempo é chegado e devemos aguardar o noivo não como as virgens loucas, mas como as virgens prudentes.

A Grande Tribulação

O comentarista da lição, usa o termo grande tribulação, enquanto o texto bíblico faz referência à hora da tentação. Na realidade, o termo “hora da tentação” é apenas o termo “técnico” para Grande Tribulação.

A Grande Tribulação é a segunda metade dos 7 anos em que a Bíblia menciona sobre a Tribulação. Para ver mais sobre este assunto e entender sinteticamente o cronograma dos acontecimentos futuros, veja o meu post: “Uma síntese do arrebatamento“, atentando também para as imagens lá contidas.

Ao se lembrar de Daniel 12:2, Jesus previu uma “grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e não haverá mais” (Mateus 24:11). É o derramamento da ira de Deus sobre o ímpio.

O versículo de apocalipse, menciona Jesus prometendo que os fiéis seriam poupados deste tempo, ou seja, o arrebatamento acontecerá antes do tempo da tribulação.

A coroa de glória

Existem várias simbologias para coroa na Bíblia. Podemos encontrar o uso da mesma sem nenhum significado, como por exemplo em Jó 2:7, exaurindo algo meramente particular.

Mas coroa pode trazer uma simbologia de reinado, seja sobre reinos teocráticos ou não. Como exemplo para um governo teocrático, temos o Salmo 21:3, onde Deus está colocando uma coroa sobre a cabeça de Davi. Já para um governo gentílico, encontramos Ester 1:11.

Encontramos também a coroa simbolizando o homem como portador da imagem de Deus e vice-regente do mesmo. Veja o exemplo disso em Salmos 8:5, quando o homem é representante de Deus no governo de tudo o que existe e foi criado no mundo. A passagem significa que de maneira real, esta é a verdadeira posição e a função do homem na criação de Deus.

Temos ainda a coroa, denominada “coroa de espinhos de Cristo”, que serviu para duas funções intencionadas pelos soldados que acompanhavam Jesus: escarnecer e torturar.

Já no termo do texto estudado, esta coroa é o símbolo de vitória. Tem como pano de fundo as competições atléticas, onde os competidores vencedores eras homenageados com uma coroa de flores ou grinalda de folhas. Na realidade esta coroa não tinha nenhum valor material, mas todos os que olhassem para o atleta que tivesse uma dessas coroas sobre a cabeça, logo tinham a certeza de estarem olhando para um vitorioso. Esta ideia foi incorporada no NT e a coroa tornou-se o símbolo da vitória sobre as forças e poderes do mal.

Filadélfia já era vitoriosa, mas a guerra ainda não havia acabado, era necessário vencer sempre o mal, dia após dia, caso perdesse, a sua coroa seria colocada na cabeça de outra pessoa.

CONCLUSÃO

Esta Igreja não poderia receber uma promessa tão pertinente como a de ser “coluna no templo do meu Deus”. Uma cidade que sofria constantemente com os terremotos, vivam constantemente vendo a cidade ser destruída, e as únicas coisas que permaneciam de pé, eram as colunas das construções.

Há provavelmente alusão aqui às duas colunas no templo de Jerusalém, chamadas Jaquim e Boaz, estabilidade e força. A Igreja é o templo; Cristo é a base sobre a qual é construída, e os seus ministros são os pilares em que, de acordo com ele, está adornada e apoiado. Paulo faz alusões à isso em, Gálatas 2:9.