INTRODUÇÃO

Era uma EBO (Escola Bíblica de Obreiros), palestrantes gabaritados, auditório repleto de homens e mulheres dispostos a aprender um pouco mais sobre a Palavra do Senhor, e temas palpitantes a serem abordados.

Os convidados para ministrar eram homens de Deus, e que mantinham a veia pentecostal clássica viva dentro de si, pelo menos era o que esperávamos de cada um deles.

Porém, em uma das ministrações, um dos palestrantes, que havia iniciado seu ensino muito bem, sem ferir nenhuma das premissas bíblicas, ao finalizar sua última participação no evento, comete o crime hermenêutico de valorizar e credibilizar a heresia diabólica da maldição hereditária, também conhecida como maldição de família.

E foi isso que me inspirou a escrever este artigo pra falar sobre este tema.

Ao falar sobre o assunto, é importante mencionar o autor desta aberração: Peter Wagner. Este é um pastor americano, nascido em uma família anglicana, e um grande propositor da batalha espiritual. Suas heresias são difundidas no estrangeiro por Rebeca Brown e no Brasil por Valnice Milhomens, Robson Rodovalho, Neuza Itioka, Jorge Linhares, Ana Paula Valadão, entre outros.

Não sou contra a teologia da batalha espiritual, mas contra os excessos e exageros que transformam-se em heresias e geram crentes paranóicos e neuróticos. Um destes excessos é a teologia da quebra de maldições, cuja maldição hereditária está inserida.

O QUE É MALDIÇÃO HEREDITÁRIA

Segundo Jorge Linhares em seu livro “Bênção e Maldição”, ele afirma que:

A maldição é a autorização dada ao diabo por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado.

Ele continua dizendo:

A maldição é a prova mais contundente do poder que têm as palavras. Prognósticos negativos são responsáveis por desvios sensíveis no curso da vida de muitas pessoas, levando-as a viver completamente fora dos propósitos de Deus

No blog http://jesus-masr.blogspot.com.br [26/12/2015], o autor afirma que maldição hereditária:

São maldições que são herdadas, que passam de geração em geração. Existe uma herança espiritual; Parte indeterminada do espírito é posto por herança aos filhos, sendo eles espirituais ou de sangue.

Para exemplificar um pouco melhor, queria que lesse com atenção este artigo (link abaixo), antes de continuar pra entender o que esta besteirada desta besteologia pode fazer, e olhem de quem vem esta bobeira: Ana Paula Valação revela um sonho do início do casamento.

A maldição pode alcançar, segundo esta teologia, o ser humano através de palavras negativas pronunciadas contra alguém, “espíritos” que acompanham as famílias (antepassados podem ter feito pactos com demônios) e objetos de antepassados que estão dentro de casa trazendo todo o tipo de desgraça.

Em suma, o que esta “besteologia” diz é que, se o seu pai era alcoólatra, você será, se a sua mãe era prostituta, você será, e assim por diante, até que a quebra da maldição seja aplicada.

MALES CAUSADOS POR ESTA “BESTEOLOGIA”

Antropocentrismo em detrimento do Teocentrismo

O homem passa a ser o centro de tudo, ou seja, suas palavras passam a ter mais valor que a de Deus. As palavras do homem passam a ter mais poder que as do próprio Deus. Quanto poder têm as palavras humanas? Somente o poder que Deus queira lhes dar conforme o Seu propósito.

Crentes espiritualistas e não espirituais

Com esta onda, muitos crentes tornam-se espiritualistas, vêem espírito em tudo e em todos. Tornam-se paranóicos, pois tudo pra eles é conspiração espiritual, engodo de satanás, etc… Deixam de ser espirituais, de viver no Espírito, e passam a espiritualizar tudo.

Ignorar a Palavra de Deus

Quando crentes adotam esta “visão”, passam a ignorar a Palavra do Senhor, e passam a idolatrar a palavra do homem. Livros, seminários, escolas, vigílias, que estejam ministrando os “brigadeiros” da batalha espiritual, são mais valiosos que as Escolas Dominicais, cultos de doutrina, etc… Estes crentes tornam-se cegos para a verdade, e abertos para uma “novidade”.

BASES (CORROMPIDAS) PARA ESTA “BESTEOLOGIA”

Os proponentes desta teologia se utilizam de muitos textos bíblicos para basearem suas predisposições espirituais. Os mais famosos são:

Êxodo 20:5

Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.

Levítico 26:39

E aqueles que entre vós ficarem se consumirão pela sua iniqüidade nas terras dos vossos inimigos, e pela iniqüidade de seus pais com eles se consumirão.

Números 14:18

O Senhor é longânimo, e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão, que o culpado não tem por inocente, e visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração.

Deuteronômio 30:19

Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.

Diante destes textos, extraem erroneamente aplicações para a vida que levam a acreditar que realmente existe uma maldição que vem de geração à geração.

COMBATENTO ESTA “BESTEOLOGIA”

Antes de argumentar, farei uma afirmação. Existe maldição hereditária? NÃO!.

Pra iniciar o confrontamento à este besteirol doutrinário, podemos dizer que a raiz de toda a maldição está no pecado (Romanos 5.12), isso é bíblico, ou seja, ninguém quebra maldição se não extirpar o pecado, e o resto é balela. Sendo assim, a Bíblia nos ensina que toda a maldição já foi quebrada na cruz, no monte caveira (Calvário) com o derramamento de sangue do nosso Senhor Jesus. A Bíblia diz em Hebreus 9.22 que sem este derramamento não há remissão de pecados, e também pagou toda a nossa dívida (eu disse toda ela) na cruz, veja Colossenses 2.14-17. Porque eu teria que pagar por algo novamente, se desde que aceitei o sacrifício de Cristo na cruz, esta dívida já foi paga e meu pecado perdoado? Precisamos recolocar a teologia da graça no lugar desta nefasta teologia da maldição hereditária.

Ao fazer a exegese de Êxodo 20.5, texto muito usado pelos proponentes desta besteologia (texto também usado pelo palestrante que mencionei no início do meu artigo), percebemos que não existe nenhuma conotação de maldição hereditária aqui.

O contexto é quando o povo chega ao pé do monte Sinai, e Moisés escala a montanha pra receber do Senhor os Dez Mandamentos (como conhecemos). No segundo mandamento (Êx 20.5), Ele fala sobre a “visita” dEle nos filhos dos filhos até a terceira ou quarta geração. Deus começa dizendo que é um Deus “zeloso”, ou seja, ciumento, Ele tem ciúmes de que sua honra e glória sejam dadas à outros deuses, sendo assim, o mandamento está relacionado à idolatria. Quando diz que visita ao filho, em sua terceira ou quarta geração, diz que por conta do pecado, este pecador (que verá sua terceira ou talvez quarta geração), sofrerá às suas consequências. Quantas gerações sofreram no deserto por causa do pecado do bezerro de ouro? Só a que pecou não entrou, mas toda a sua posteridade alcançou a promessa. Não vi em nenhum lugar a quebra de maldição hereditária aqui para que os filhos, netos, bisnetos e tataranetos dos idólatras do deserto pudessem entrar na terra prometida. Argumentando em resumo, eu diria: se o mandamento era de maldição aos filhos dos filhos, porque os filhos e netos dos murmuradores do deserto entraram na terra prometida sem terem que fazer quebra de maldição?

VOLTANDO À EBO

Ao chegar no ponto em que o palestrante começou a explanar sua simpatia à esta besteologia da maldição hereditária, não percebi nenhuma reação de rejeição da maioria dos que ali estavam. Isso me causou estranhesa, e preocupação.

Estávamos entre homens de Deus, pastores e mestres, que deveríamos protestar quando este homem profanava a teologia da graça, mas como vivemos no “politicamente correto”, muitos, ao contrário do que deveria ser feito, deram “glórias a Deus”.

Percebi que um irmão, também pastor de igreja, assentado em uma cadeira atrás da minha, também se indignou e baixinho protestou.

Eu? Eu na verdade fiz o que deveria ter feito, seguindo o conselho da esposa de um grande pastor: “o dono da boca fala o que quer, e o dono dos ouvidos também ouve o que desejar“. Levantei, peguei a minha Bíblia, virei as costas e fui embora.

Se todos fizéssemos isso às heresias (virar as costas à elas), o máximo que elas alcançariam era a mente de quem as idealizou.

Que Deus vos abençoe em nome de Jesus, e lembre-se: “Somos salvos pela graça por meio da fé, e isso não vem de nós, é dádiva divina” (Ef 2.8)