Quando lemos o livro de Gênesis, logo no capítulo oito, temos um versículo interessante:

E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra. (Gênesis 8.7)

O mundo inteiro estava submerso em águas, que foi a forma de Deus castigar a humanidade de até então. Sobraram apenas uma família e os animais designados por Deus, protegidos dentro de uma arca.

Quando as águas do dilúvio começaram a diminuir, o texto diz que Noé envia um corvo para verificar se sair da arca já era viável. Uma literatura judaica conjectura um diálogo curioso entre Noé e o corvo. O corvo expressa a sua indignação de ter sido escolhido para tal missão e Noé explica-lhe porque o escolheu: “Escolhi você porque os corvos não são aptos nem para comer e nem para o sacrifício“.

O corvo é uma ave interessante. Há quem ainda confunda corvo e urubu, mas não são a mesma coisa. Urubus são aves que se alimentam apenas de carniça, são grandes e nenhum pouco predadores. Já os corvos se alimentam com grande variedade de alimentos, incluindo a carniça, não são tão grandes quanto os urubus, chegando ao máximo de 70 cm, e ao contrário dos urubus, não são animais “decompositores”, e sim exímios predadores.

Os corvos possuem algumas características interessantes:

São aves facilmente adaptáveis, adaptam bem desde montanhas até vales.

São aves muito alegres e brincalhonas, veja o vídeo abaixo:

Os corvos são muito empáticos (colocar-se na posição de outro, sentindo o que ele sente. Assemelha-se à compaixão.). Se um corvo presenciar a tristeza de outro, aproxima-se como se fosse pra consolar.

São muito inteligentes, tendo sua inteligência comparada à dos chimpanzés e dos golfinhos. Veja o vídeo de um corvo imitando a voz humana:

Depois de entender sobre esta ave que foi utilizada por Noé, não por coincidência, para saber se as águas do dilúvio já haviam evacuado, voltemos ao texto.

A referida literatura judaica continua dizendo que Deus, repreende Noé pelos seus comentários insultuosos para com o corvo. Deus alerta Noé de que um dia, se não fosse um corvo, o profeta de Deus passaria muita fome (1 Reis 17).

Corvo trazendo alimento para Elias

Corvo trazendo alimento para Elias

Mas o que exatamente esta literatura está querendo dizer?

Está dizendo que o corvo foi específico para levar alimento ao profeta Elias, porque o corvo é uma das três únicas criaturas que se dão bem com os da sua própria espécie. Os seres humanos entre outras criaturas vivem competindo com os de sua própria espécie, mas os corvos apresentam amor e preocupação uns pelos outros. O corvo, portanto, foi usado para ensinar Elias uma lição crítica.

Elias havia decretado a seca, segundo a sua própria palavra, durante uma época de idolatria e profanação sob o reinado de Acabe, um rei mau. Segundo os estudiosos, Elias fez isso por achar que a geração da época de Acabe, era uma  geração sem valor, afinal, “todos” do seu tempo tinham adotado idolatria.

O corvos fizeram Elias se lembrar do erro de Noé em não lhes dar qualquer valor. E uma grande realidade é, que os corvos, diante de tantas características mencionadas acima, possuem uma qualidade cuja importância não pode ser ignorada: a unidade.

Da mesma forma, a geração de Acabe, segundo o Talmude, trabalharam juntos em amor e harmonia (Yerushalmi Peia 1:1). Embora isto, de forma alguma, justifique seu culto pagão, Elias não podia fazer com as pessoas da época de Acabe, um mal na mesma proporção à idolatria.

Esta é a mensagem dos corvos “trazendo alimento para Elias”: a unidade judaica sustentou a geração de Acabe.

Esta é a mensagem mais adequada à Noé. Deus disse a Noé, que à Ele recai a responsabilidade de começar o mundo de novo, mas que a amizade e a harmonia entre os povos devem ser prioridade.

Mesmo que um corvo não seja ritualmente comestível e ritualmente adequado para o sacrifício, sua bondade e compaixão para com os seus pares o torna inerentemente valiosos.

Isso serve de lição pra nós. Quando muitos não são valorizados pelos parâmetros egoístas e meramente formais, Deus tem visto o quanto estes rejeitados, ignorados e desprezados possuem o seu real valor. São estes os que fazem realmente a diferença. E se não fosse o corvo na vida de Noé; e se não fossem os corvos na vida de Elias; e se não fosse você? Reflita, e se não fosse você?

Em situações de crise, tem grande adaptação, porque aprendeu a não viver somente na bonança. Em situações angustiantes e de grande aflição, tem o poder de sorrir e brincar, pois confia inteiramente em Deus. Em situações na qual um irmão passa por grandes problemas e sofrimentos, não consegue deixá-lo sozinho, mas está sempre pronto a ajudar. Esse é você. Por isso, pense novamente, e se não fosse você na vida do seu filho? E se não fosse você na vida do seu irmão? Na vida do seu pai ou da sua mãe? E se não fosse você?!

Por isso, mesmo que não te valorizem, você é mais importante do que pensa. Mesmo que seja pra espiar o baixar das águas, ou mesmo que seja para alimentar um profeta, sua vida é valiosa.

Deus lhe abençoe!