Textos: Tiago 5.19, 1 Coríntios 4.5, João 7.24, Lucas 6.37 e Mateus 7.1

CENÁRIO E PANO DE FUNDO

Hipocrisia

Hipocrisia

O evangelho de Mateus faz parte do que chamamos de “Evangelhos Sinóticos”, pois são evangelhos parecidos, fazem parte: Mateus, Marcos e Lucas.

Marcos era menino de Pedro, e escreveu seu evangelho de Roma para os gentios romanos que se converteram a Cristo para que permanecessem firmes diante do sofrimento, pois Cristo mesmo era o servo sofredor (Isaías 53). Era a mão de Marcos, mas a voz era de Pedro.

Lucas por outro lado, era menino de Paulo, e escreve seu evangelho em particular à um cristão chamado Teófilo (aquele que ama a Deus), e apresenta Jesus como o Homem ideal e como o Salvador de todos os tipos de homens.

Mateus, ao contrário dos outros dois, era uma testemunha ocular dos fatos, pois fazia parte do rol dos doze apóstolos de Jesus. Mateus escreve primariamente aos judeus para demonstrar à nação de Israel que Jesus Cristo era o Messias prometido, o Messias da aliança, e também para explicar a Israel por que, sendo ele o Messias verdadeiro, seu reino não se estabeleceu por ocasião de sua vinda.

Resumindo, Mateus traz um tema chave para o Evangelho: O Rei e o seu reino. Os dez primeiros capítulos tratam da revelação do rei, sendo divididos assim:

  • Capítulos 1 a 4 – Sua pessoa
  • Capítulos 5 a 7 – Seus princípios
  • Capítulos 8 a 10 – Seu poder

Dentro dos princípios, temos:

  • A verdadeira justiça (Mt 5)
  • A verdadeira adoração (Mt 6)
  • O verdadeiro julgamento (Mt 7)

Aquilo que estamos chamando de princípios, é muito conhecido por nós como o Sermão do Monte, ou seja, os princípios do reino a que Cristo se refere. Dentro do Sermão da Montanha, nos deparamos com o texto de Mateus 7.1-5, e temos que entender para quem Jesus estava falando, quem eram os ouvintes.

As pessoas que tiveram a felicidade de ouvir este sermão ou ensinamento formavam três categorias distintas:

  1. na primeira fila, estavam os apóstolos recém eleitos por Jesus,
  2. logo em seguida, encontram-se os vários discípulos que seguiam a Cristo,
  3. e por último um punhado de gente que vinham atrás de Jesus para vê-lo e ouví-lo.

Porém o discurso era específico aos das duas primeiras fileiras, pois somente estes poderiam cumprir os requisitos de serem cristãos bem aventurados e sal e luz da terra. Por isso, este estudo é para todo aquele que diz crer em Jesus e professa esta fé.

O ENSINO PREGADO

O didaquê, que são as instruções dos apóstolos às igrejas primitivas, afirma que existem apenas dois caminhos: o da vida e o da morte. O caminho da vida inclui ações como amar a Deus acima de tudo e o próximo como a nós mesmos. Já o caminho da morte inclui o “julgamento” malicioso e maldoso de nossos irmãos.

Na Mishná encontramos paralelo ao que os apóstolos ensinam: “não julgues ao teu semelhante enquanto não estiveres na posição dele” ou ainda “Quando julgares alguém, inclina a balança em seu favor”

Os textos que lemos tratam justamente disso: julgamento. O termo julgar aqui, não possui apenas este significado, mas pode também referir-se à “punir”, “contender”, “obter justiça”.

O que Cristo está ensinando aqui é que não podemos ter um espírito crítico que em tudo encontra falhas. Nós sempre estamos de prontidão para apontar, acusar e condenar, algo que os fariseus e os escribas da época faziam “muito bem”.

Jesus aqui não está proibindo que os órgãos públicos responsáveis julguem as pessoas consideradas réus, e nem mesmo a igreja de julgar àqueles que andam desordenadamente, mas sim de não termos um espírito censurador e acusador.

Todo julgamento precisa de um padrão, ao que Pedro nos esclarece e demonstra o padrão ao abordar o assunto lá em 1 Pedro 1.15-16: “Segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo”. Como nunca chegaremos à alcançar a plenitude da santidade divina, corremos o risco de criarmos os nossos próprios padrões, e de acordo com eles passarmos a julgar a todos. Quando o Senhor disse “Não julgueis”, tratava ele mais dos motivos do que das ações.

Qual é então o problema? No que consiste então a exortação de Cristo? O problema não está em julgar, e sim na hipocrisia de quem julga.

A HIPOCRISIA

Termo que no NT é aplicado à conduta humana que era religiosa exteriormente, mas motivada de forma insincera; simulação de bondade.

Quando lemos os versículos de 3 a 5, Jesus mostra a incoerência de quem julga. Jesus escolhe para sua ilustração uma das partes mais sensíveis do corpo humano. Trata-se simbolicamente como a parte do entendimento humano, como ilustrado em Jó 17.7.

Para ilustrar de maneira impactante, Jesus usa a parábola do argueiro e da trave. A trave é uma pesada peça de madeira usada em construção como suporte horizontal para travar o madeiramento. Uma viga sobre uma casa está edificada. Já o argueiro, é apenas uma farpa desta mesma viga, ou seja, infinitamente menor.

Jesus está dizendo que aquele que está sem visão, não pode ajudar um outro que está também com a visão prejudicada, senão ambos serão prejudicados (Mt 15.14).

Aí surge uma pergunta: quem é este oftalmologista? A resposta de Jesus é imediata: o hipócrita. Este é um termo usado por Jesus para caracterizar os escribas e fariseus de seus dias, ou seja, aqueles que confiavam em si mesmos por se considerarem justos e desprezavam os outros (Lc 18.9).

O que a analogia do argueiro e da trave nos traz, é que muitas vezes somos hipócritas em condenar nos outros o que toleramos em nós mesmos. Jesus não está dizendo que não precisamos remover o argueiro, na verdade ambos, trave e argueiro precisam ser removidos, mas primeiro a trave.

A hipocrisia consiste em duas coisas:

  1. O hipócrita nunca reconhece o seu próprio pecado, que é maior que o pecado alheio;
  2. O hipócrita finge justiça ou interesse espiritual, ordenando que os outros endireitem suas vidas. Fingir interesse espiritual era a característica mais notável dos fariseus.

CONCLUSÃO

O pecado da hipocrisia, aqui condenado por Jesus, era muito comum, e para entendermos melhor, vamos analisar a história de um rei de Israel (2Sm 12.1-7). Porque Davi julgou e condenou o personagem da história de Natã, mas nunca se culpou ou condenou a si mesmo? Porque até este momento, era um hipócrita, talvez tenha sido por isso que escreve o Salmo 139:

SENHOR, tu me sondaste, e me conheces.
Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento.
Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.
Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces.
Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão.
Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir.
Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?
Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também.
Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar,
Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.
Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim.
Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa;
Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe.
Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.
Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.

Salmos 139:1-16