Lições Bíblicas | 2º Trimestre de 2012 | As sete cartas do apocalipse | Lição 7 : Sardes, a Igreja morta

INTRODUÇÃO

A autenticidade é uma das marcas registradas do verdadeiro cristianismo e o farisaísmo é o oposto desta marca.

Jesus, certa vez advertiu os fariseus por sua insistência na hipocrisia. Jesus os chamou de sepulcros caiados, porque tinham a aparência de belos e limpos por fora, mas por dentro havia somente podridão.

Este termo foi usado por Jesus, pois na tradição judaica, havia um cerimonial que era realizado todos os anos, um mês antes da páscoa, em que, todos os túmulos, que não estivessem devidamente marcados, deveriam ser caiados (pintados com cal), para que os peregrinos que viessem para a páscoa não os tocassem, pois segundo a lei, tocar no que é morto ou algo relacionado, torna-se-ia impuro (Números 19.16). Sendo assim, nesta época todas estas sepulturas eram pintadas com esta finalidade.

Sardes

Jesus ao se utilizar deste termo, ele está dizendo: “Vocês podem tornar a beleza exterior amplamente visível, mas a podridão e a morte que está lá dentro continua do mesmo jeito. A hipocrisia de vocês é contínua”.

Segundo Lawrence Richards, o termo hipocrisia é utilizado em Mateus para alguém que atua em uma peça. Para atores, em grego, que usam roupas exageradas e máscaras pintadas com a intenção de representar um personagem.

Assim era a Igreja de Sardes, todos olhavam para ela, e imaginavam uma igreja bem viva, mas Deus, que conhece todas as coisas sabia, que Sardes estava representando, que Sardes era uma igreja morta, e segundo o comentarista da revista: “já cheirava mal”.

Será que existem igrejas hoje nesta situação? Infelizmente sim, e precisam de um avivamento.

Ao contrário de Éfeso, Pérgamo ou Tiatira, que precisavam de se arrepender dos seus erros e voltarem ao caminho, Sardes precisava de muito mais do que isso: precisa de ressurreição, pois Sardes, é a igreja morta.

A boa notícia é que, o Espírito Santo pode soprar sobre esta Igreja e ressuscitá-la.

A IGREJA EM SARDES

A cidade de Sardes

Sardes significa: príncipe de alegria.

A Enciclopédia Britânica afirma que a primeira menção à cidade de Sardes, tenha sido por Ésquilo, um dramaturgo grego, chamando-a de Hyde. Não sabe-se se essa informação é procedente, mas é possível que sim, pois sabemos, segundo a Enciclopédia da Bíblia Padrão Internacional, que Sardes foi uma das mais antigas e importantes cidades da Ásia Menor, portanto, é aceitável que esta cidade possuísse no passado um outro nome.

Segundo Orlando Boyer, Sardes foi a primeira cidade dessa região a receber o Evangelho, sob a pregação do apóstolo João, a primeira a desviar-se da fé e uma das primeiras a cair em ruínas.

Merril Unger diz que Sardes era famosa pela sua riqueza, advinda da indústria de tecidos (lã) e jóias (pois acredita-se que o ouro era facilmente encontrado no rio Pactolus, que corria bem próximo à cidade). Era conhecida também por ser uma fortaleza militar, estando a 458 metros de altitude, tendo uma visão ampla de todo o territótio a sua volta.

Segundo Wiersbe, a religião principal da cidade, era o culto a Ártemis (Diana), onde os preceitos religiosos giravam em torno dos conceitos de morte e renascimento, Merril Tenney acrescenta que o culto de adoração à Diana envolvia também o culto à Cibele.

Apesar de ser uma fortaleza, cercada por penhascos, a cidade tornou-se orgulhosa e auto-confiante, o que a levou a destruição. O historiador Heródoto, possuía uma doutrina em que ele dizia que o poder e a riqueza produziam arrogância, e a rrogância termina em ruína, este historiador encontrou em Sardes e no seu rei (Creso), essa ilustração notável e sombria.

A história registra que a cidade foi invadida por duas vezes, por falta da vigilância dos vigias, que não cumpriram o seu dever. Em 549 a.C. a cidade foi invadida por Ciro, rei da Pérsia, entrando na cidade por uma brecha subindo os penhascos, pois ali, pouca vigilância havia. Em 214 a.C. foi invadida por Antíoco, curiosamente, pelo mesmo lugar, ou seja, o lugar sem vigilância. Com isso a cidade nunca mais voltou a ser aquela potência, e o golpe final contra ela foi um terremoto, ocorrido em 17 d.C., que arruinou a cidade para sempre.

Esta é a história da cidade. Vance Havner nos lembra que os ministérios espirituais muitas vezes passam por quatro estágios: um homem, um movimento, uma máquina e um monumento. Esse foi o processo da cidade, e estava sendo repetido pela igreja.

A igreja em Sardes

Na época em que a carta foi enviada, a cidade de Sardes vivia ancorada no seu passado glorioso, no seu glamour de um passado remoto. Estavam vivendo sob a aparência de uma antiga cidade, mas na realidade, era uma cidade destruída. A Igreja estava de certa forma representando a cidade, estava vivendo de aparências.

Merril Tenney diz que toda a imagem da carta é vivida na história do lugar: as obras inacabadas, o ladrão subindo a noite, a surpresa inesperada. A comunidade cristã foi infectada pela complacência do lugar.

Wiesbe comenta dizendo que, como a própria cidade, a igreja de Sardes gloriava-se no esplendor do seu passado, mas ignorava a decadência presente.

O comentarista da revista menciona Paulo como o suposto fundador da igreja em Sardes, mas como já mencionamos anteriormente, Boyer afirma que a mesma foi fundada pelo apóstolo João.

Eusébio de Cesaréia menciona um bispo muito famoso da cidade, seu nome era Melito, mas esse não deve ter sido o receptor da carta de João, pois Melito foi bispo na igreja no século II, e a carta é do primeiro século. Sendo assim, não sabemos quem foi o pastor que recebeu a carta, o que parece é que deveria ter sido alguém muito popular, devido ao versículo: “tens nome de que vives“.

Severino Pedro da Silva afirma que dois gêneros de morte estavam rondando este “anjo”:  a morte moral e a morte espiritual. (Gn 20.3 e Ef 2.1). Ele se encontrava duplamente morto(Jd v. 12).

E como a igreja é representada pelo seu pastor, entendemos como era a situação da igreja no momento em que João  enviou a carta: morta.

A IDENTIFICAÇÃO DO MISSIVISTA

Neste momento Jesus apresenta-se como aquele que tem os sete Espíritos de Deus. Para cada Igreja, Jesus apresenta-se de uma forma diferente, para ver isso melhor, veja o prefácio do artigo Tiatira, a igreja tolerante.

O que tem os sete Espíritos de Deus (Ap 3.1)

O comentarista diz que sem o Espírito Santo, a vida é impossível, e que se Sardes estava morta, carecia então com urgência do Espírito da vida (Rm 8.2).

Tiremos de nossa mente a ideia de que o Espírito Santo somente entrou em cena no universo no dia de pentecostes. Sabemos que na criação Ele estava lá, pairando sobre as águas. Quando lemos a profecia de Joel 2.28-29 e Pedro citando esta mesma profecia em Atos 2.17-18, entendemos que, segundo Stanley Horton, o Espírito Santo não mudou sua atividade ou a sua qualidade, mas que a quantidade e o escopo de suas atividades agora são outros.

O Espírito Santo em toda a Bíblia está representando por vários títulos, onde encontramos heb. ruach YHWH “Espírito do Senhor”, heb. ruach ‘elohin “Espírito de Deus”, Ajudador (Jo 14.16), Espírito de Santificação (Rm 1.4), Espírito de vida (Rm 8.2), Espírito da graça (Hb 10.29), Espírito da glória (1Pe 4.14). Também encontramos vários símbolos, como vento (Jo 3.8), água (Jo 7.39), fogo (Mt 3.11-12), óleo (1 Jo 2.20,27)), pomba. Devemos entender que os títulos e os símbolos são as chaves para o entendimento de sua obra em nosso favor. Para Sardes a obra do Espírito Santo era de trazer novamente a vida.

O que tem os sete Espíritos, segundo o Comentário Crítico e Explicativo da Bíblia, é aquele que tem a plenitude do Espírito. Este atributo implica seu infinito poder para convencer o homem do pecado, e neste caso, tem poder para dar vida, para ressuscitar. Por isso o comentarista fala deste Espírito que pairava sobre a face do abismo (Gn 1.1-2).

Rashi, a respeito de Gn 1.1-2, diz que a terra formada estava em puro caos, surpreendentemente vazia e a imagem aqui é de pessoas completamente perplexas, surpresas e desoladas com o vazio, e nós sabemos que o caos pode ser revertido com o Espírito Santo. Rashi, ainda complementa que este Espírito que paira sobre a face das águas, é o trono do Senhor suspenso no ar soprando sobre a criação, dando vida, assim como soprou nas narinas de Adão.

Lawrence Richards complementa dizendo que o Espírito Sando é a fonte da vitalidade da vida cristã. Se permanecermos fiéis a Jesus, ele nos trará a vida essencial.

Os sete Espíritos de Deus

Adam Clarke comenta que os anciãos judeus, que representavam o trono de Deus, como o trono de um monarca oriental, supunham que havia sete anjos ministrando diante deste trono, já que haviam sete ministros, atendendo no trono do monarca da Pérsia. Vemos uma referência disto em Tobias 12:15: “Eu sou Rafael, um dos Sete Anjos Santos que apresenta as orações dos santos, e que entra e sai diante da glória do Altíssimo”. E no Targum de Jonathan ben Uzziel, Gênesis 11:7: Deus disse para os Sete Anjos que permanecem diante dele, venham agora, etc. John Gill também tem este pensamento.

Já Coffman, pensa como o comentarista da lição, e atribui estes sete Espírito à Isaías 11.2, onde estes sete Espíritos são os títulos do Espírito Santo, e desde a antiguidade, estes termos tem sido associados à Ele. Essa interpretação é confirmada por Hinds.

Barclay sustenta também a mesma idéia de Coffman, dizendo que os sete Espíritos de Deus, na verdade, é o Espírito Sando com seu sétuplo dom, ou seja, sua sétupla manifestação.

Mas Barclay, ainda expõe uma segunda interpretação para este termo: “Denota o Espírito em sua sétupla atuação. Há sete Igrejas na Ásia, e entretanto em cada uma delas o Espírito opera na plenitude de sua presença e poder. Em cada uma delas sua presença é igualmente plena e completa. Os sete espíritos significam, então, a universalidade da presença do Espírito Santo.”

Resumindo, podemos entender que os sete Espíritos de Deus representam seus títulos, dons, manifestações e atuações, tudo em sua completude e universalidade.

As sete estrelas

Em Apocalipse 1.16, Jesus diz que tem as sete estrelas em sua mão direita. Barnes diz que estas sete estrelas são os pastores das igrejas e que eles descansavam sobre a mão do Todo Poderoso. Barnes acrescenta comentando o capítulo 3.1 que Jesus tem a intenção de demonstrar que Ele tem o controle em suas mãos e pode tirar os pastores ou colocá-los como bem desejar.

John Gill comenta que as sete estrelas são os pastores que foram enviados, mantidos e iluminados por Cristo para serem luz neste mundo.

No Comentário Crítico e Explicativo da Bíblia, estrela implica brilho e glória, a plenitude do Espírito e de sua luz brilhando sobre os pastores.

Já Robertson, afirma que são os símbolos da igreja, sete planetas, ao invés de Pleiades (mitologia grega) ou outra constelação como a de Urso.

Concluímos, portanto, que os “anjos” instituídos para cada igreja tinham papéis bem definidos por Deus. Tinham que confiar no Senhor como protetor, pois estavam descansando nas mãos de Todo Poderoso, tinham que temer ao Senhor, pois Ele é Soberano, tinham que brilhar, permanecer brilhando e expor a glória do Senhor que estava sobre eles.

Mas não foi bem isso que o pastor de Sardes estava fazendo. Ele conduzia a igreja à morte.

A DOENÇA E A MORTE DE UMA IGREJA

Perda de memória

A memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis. Segundo os estudiosos (vide fonte), existem dois tipos de memória: declarativa e não-declarativa. A memória declarativa, está relacionada a tudo o que vivemos, pessoas que nos relacionamos e acontecimentos de nossa vida, é interessante que ela pode ser facilmente adquirida, como também facilmente esquecida. É a memória do consciente. Já a memória não-declarativa, é aquela memória procedural, relacionada a coisa que fazemos na rotina, por exemplo, eu não preciso saber como se dirige um carro, eu simplesmente tenho este processo na mente, e dirijo sem pensar.

A igreja de Sardes, possuía a memória não-declarativa, mas ignorava a declarativa. Esqueciam-se do que o Senhor lhes havia feito. Eles deveriam se lembrar, segundo Hinds, da forma milagrosa de como a igreja tinha sido estabelecida ali, da notável da verdade do evangelho e de como em sinceridade e entusiasmo aceitaram o evangelho.

John Gill diz que, o que eles deveriam se lembrar não era como alegremente receberam a mensagem do evangelho, mas sim, de onde eles haviam depositado esta mensagem e como ela estava relacionada com o entregue pelo Senhor. Para que depois disso, eles não poderiam reclamar de nunca terem recebido a mensagem. Acrescenta ainda, que, o que eles tinham recebido, estava lá, bem guardado.

Robertson acrescenta que este depósito, mencionado acima, é “permanente”. E Vincent, em seus estudos, arremata dizendo que, o que eles haviam recebido estava lá, guardado, mas não estavam mais o considerando (os ensinamentos do Senhor). Era como se apenas estivessem estacionado no passado, ou seja, apenas ouviram, e não se lembram mais.

Desleixo

O desleixo é quando não cumprimos o nosso dever com sinceridade e integridade. Se nossa missão é ensinar, ensinemos na sua totalidade, se é louvar, louvemos com todo o nosso ser.

A Bíblia diz que na invasão de Jericó, a ordem era para que tudo fosse destruído, mas infelizmente, a ordem não foi cumprida à risca. Acã foi o responsável por quase destruir toda a nação.

Diz um escritor judeu: “O que se afasta de um mau caminho, e não faz o que é bom, seu trabalho é imperfeito, ele não pode ser abençoado.”

Talvez essa frase ilustre melhor a vida, aliás, a igreja sem vida de Sardes. E o comentarista se utiliza de um termo que expõe melhor a ideia: Jeremias 48.10.

Descaso para com o remanescente fiel

É interessante, que mesmo sob a visão de Deus, este pastor e a igreja estarem mortos, o versículo 2 menciona uma ordem ao pastor: “Confirma os restantes”.

Segundo o Comentário Crítico e Explicativo de Toda a Bíblia, este termo não se refere aos que permanecem íntegros, mas fala sobre o que ainda não estão completamente mortos, ou seja, àqueles que estão prontos para morrer, agonizando, quase na mesma situação da maioria.

Adam Clarke acrescenta dizendo que se refere àqueles que ainda possuem boas convicções de fé e temos à Deus, mas que estão prestes a parecer, pois o Espírito Santo, o autor da vida, por estar muito triste, está saindo definitivamente de lá.

Barnes traz-nos uma ideia mais ou menos assim: que alguns em Sardes não são mais um fogo, mas sim, apenas uma pequena faísca, prestes a apagar, e que precisam apenas de um sopro para que volte a inflamar e viver, caso contrário morrerão também.

Segundo M. S. Novah isso significa que alguns na igreja ainda possuíam um pouco de vida espiritual, e estavam sofrendo com o cheiro de morte na congregação onde adoravam a Deus.

E o Dr. Norman observa que aquela igreja já não estava inteiramente destituída do bem, da vida e da esperança. O que a igreja precisava era apenas ouvir o grito: “Torna-te desperto, e põe-te a vigiar”. Essa é uma tradução literal do que diz o grego (Ef 5.14). O sono deles era um sono letal, a menos que se despertassem.

O versículo 4 faz referência à possibilidade de haver ali, crentes fiéis.

Os Hebreus, segundo Adam Clarke, consideram a santidade como o traje da alma, e as más ações são como manchas sobre esta vestimenta.

João diz que ali haviam algumas pessoas que ainda estavam com suas vestes sem mancha.

John Gill comenta que a versão etíope acrescenta “com uma mulher”, ou seja, Jezabel. Estes crentes não foram culpados de fornicação física ou espiritual, que é idolatria, mas eles mantiveram suas vestes puras e sua profissão de fé em Cristo, bem como suas verdades inalteradas; eles não abraçaram falsas doutrinas; realmente eram poucos. Entre os judeus, se as vestes de um sacerdote forem vistas manchadas ou contaminadas, ele não poderia ministrar, se o fizesse, seu serviço seria rejeitado.

Wesley diz que mesmo sem mancha, estes fiéis permaneceram no meio dos sujos. Entendo que quando somos fiéis, mesmo em meio à podridão a luz de Cristo que está em nós brilha como nunca.

O Senhor está culpando o pastor de descaso para com estes fiéis. Segundo o comentarista, eles eram os únicos que ainda respiravam no necrotério de Sardes.

Conclusão

O livro da Vida, segundo Merril Tenney, está baseado nas referências do AT ao livro de Deus onde estão escritos os nomes dos justos (Sl 69.28; Êx 32.32). O judaísmo desenvolveu a ideia de que Deus possui dois livros, um para os justos e outro para os iníquos, e que os atos dos homens são registrados pelos anjos, arcanjos, Miguel, Elias e Enoque. Já o NT vincula a salvação à todos àqueles que estão com seu nome escrito no livro da vida do Cordeiro (Ap 13.8). Não ser encontrado no livro de Deus ou ter sido riscado dele, ou não ser encontrado no livro da Vida (Ap 17.8; 20.15), significa separação de Deus e perdição.

Essa era a promessa: que aquele que vencer, nunca terá seu nome riscado do livro da vida.