Texto: 1Co 12.12 | Tema: Passando a visão de comunhão | Título: Sem comunhão, sem frutos

INTRODUÇÃO

A cidade de Corinto era uma das mais estrategicamente localizadas do mundo antigo. Toda a sua riqueza advinha do seu movimento comercial por mar e terra, sua cerâmica, indústria de metal e por sua importância política, sendo capital da Acaia. Chegou à uma população de 200.000 homens livres e 500.000 escravos.

O materialismo e a luxúria eram dois vícios que assolavam a cidade. A atividade comercial nutria o primeiro, e o famigerado culto a Afrodite o segundo. Afrodite tinha o seu templo em Acrocorinto, e este era único na Grécia. Suas sacerdotisas chegavam a mais de 1.000 “escravas sagradas”, e que também geravam muito lucro.

A cidade era tão caracterizada por sua promiscuidade que o termo “corintianizar” significava viver em luxúria e imoralidade.

De todo o império romano, talvez Corinto fosse o lugar mais difícil de começar uma Igreja. Porém foi para lá que Paulo foi: sozinho, sem dinheiro e porque não dizer, em depressão espiritual. Mas Paulo enxergou nesta ocasião, uma porta aberta pelo Senhor. E quando Deus abre portas, muitas vezes o inimigo tenta fechá-las, e outras nós mesmos fechamos, mas Paulo, mesmo com a situação difícil, não desistiu. Spurgeon lembrava sempre a sua congregação que “perseverando, o caracol chegou até a arca”.

Dependendo somente da proteção de Deus Pai, do poder dado por Jesus e do consolo do Espírito Santo, este missionário chamado Paulo, começou a pregar nesta Sodoma do Novo Testamento. E quando encaramos as situações difíceis confiantes no Senhor, Ele tende a investir mais e mais em nós e nos estimula a continuar. Os mesmos estímulos que Deus proporcionou à Paulo, estão à nossa disposição hoje.

  • Colaboradores dedicados: Para se diferenciar dos charlatões religiosos que trabalhavam como itinerantes em Corinto, Paulo foi trabalhar para se manter. Deus lhe providenciou Áquila e Priscila, que exerciam o mesmo ofício dele. Agora Paulo não estava mais sozinho e ainda tinha como se sustentar. O rabino Judá dizia: “Aquele que não ensina o filho a trabalhar, o está ensinando a roubar”; Paulo aprendeu a fazer tendas. Esse casal era completamente dedicado à obra, e Paulo agradeceu a Deus por tê-los colocado em seu caminho. Todo missionário precisa de um Áquila e de uma Priscila em sua equipe. Mais tarde Silas e Timóteo, chegam da Macedônia trazendo uma oferta a Paulo, proporcionando assim a que Paulo ficasse integralmente à pregação do evangelho. Quando nos engajamos na obra, Deus manda reforço, Deus manda companheiros dedicados. Todos sabem que Paulo foi um grande evangelista e missionário, mas seja sincero, sozinho ele conseguiria o que fez? A unidade dos irmãos foi essencial para que Corinto produzisse uma das maiores igrejas do primeiro século.
  • Oposição: Quando invadimos o território do inimigo e libertamos seus escravos, ele se levanta com fúria, e Paulo sabia disso (1Co 16.9). O interessante é que, quando aparece a oposição, é sinal de que Deus está agindo. Spurgeon mesmo dizia: “o diabo nunca chuta um cavalo morto!”. Perseverando se chega lá. No momento certo, Deus colocou ainda outro amigo na vida de Paulo: Tício Justo. Alguns acreditam que Tício Justo, na verdade era Gaio, e seu nome seria Gaio Tício Justo. Como Paulo não podia mais ministrar na sinagoga, Deus providenciou a casa de Gaio para que o evangelho fosse pregado. A casa era do lado da Sinagoga. Deus é tremendo, porque ministrando dali ele acabou ganhando pra Jesus, o líder da Sinagoga.

Como é importante a unidade entre aqueles que servem à Deus e a comunhão com o Senhor. Esta equipe, providencial de Deus, foi a responsável por lançar a semente que frutificou em Corinto, gerando uma das maiores igrejas do Novo Testamento. O que proporcionou isso? A unidade, a comunhão de todos os da equipe do missionário Paulo.

A Igreja de Corinto era dotada de algumas virtudes, mas também de algumas deficiências. A virtude mais proeminente desta igreja, é que nela não faltava nenhum dom (1 Co 1.7). Isso significa que era uma igreja que buscava as promessas do Senhor. Como é bom uma igreja que crê e busca as promessas do Senhor Jesus. Quanto aos defeitos, poderíamos enumerar vários, é só lermos a carta de 1 Coríntios, que na realidade é uma carta-resposta à muitas dúvidas e problemas encontrados na igreja e denunciados por remanescentes, mas esta igreja trazia dentro dela um problema mortal, letal: Falta de comunhão.

CONCEITO DE COMUNHÃO

Segundo Merril Tenney, o conceito de comunhão, em seu sentido tradicional, possui originalmente uma conotação cristã. Seus precursores, porém, podem ser vistos na vida familiar, tribal e religiosa de Israel. Já J. Packer acrescenta dizendo que a palavra grega traduzida por “comunhão” traz uma idéia de compartilhar ou de ter algo em comum com alguém, ou seja, assume uma forma dupla: ou por darmos uma parcela do que possuímos a alguém ou receber de alguém uma parcela do que ele possui.

J. Douglas divide a palavra grega que deu origem à comunhão em três classes, veremos:

1. Receber uma partilha: Descreve a idéia de sócios em um empreendimento comum (2Co 8.23), em uma experiência comum (perseguição, Hb 10.33; Ap 1.9; sofrimento. 2Co 1.7; adoração);

2. Dar partilha: Generosidade para com o ministério apostólico (Fp 1.5; Fm 6). Ação prática para a generosidade (2Co 8.4);

3. Compartilhar: Doar o que é particular, a todos, incluindo bens materiais (At 2.42)

A comunhão é tão importante, que a primeira descrição característica da Igreja recém-inaugurada contém a comunhão (At 2.42), mas não era uma participação em conjunto, era muito mais do que isso, é só olharmos para o versículo seguinte (At 2.43-47).

Comunhão envolve três esferas diferentes e que se completam, que veremos a seguir:

COMUNHÃO CENTRAL

Quantas vezes nos preocupamos com o que está em nosso redor? Afadigamo-nos com coisas exteriores a nós? É importante que isso ocorra, mas por vezes nos esquecemos da nossa própria vida. No Salmo 42.5, o salmista faz um apelo à sua própria alma “Porque estás abatida, ó minha alma, e porque perturbas em mim?”. É uma clara imagem de que precisamos manter uma comunhão em nós mesmos.

O apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses 5.23 ele diz: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.”, ou seja, ele está dizendo, que apesar de sermos um, somos formados de três camadas: Corpo, Alma e Espírito. Paulo está dizendo que a santidade, é para o ser total do homem, ela deve alcançar o corpo, o tabernáculo material (2Co 5.1-8) no qual o homem peregrina neste mundo e com seus cinco sentidos se comunica com o mundo natural; a alma, a sede dos afetos, desejos, vontade e emoções (Mt 11.29, Jo 12.27) e espírito, a parte mais elevada do homem, que conhece a Deus (1 Co 2.11) e se comunica com Ele (Jó 32.8).

Entendemos que nosso corpo precisa estar em comunhão com a nossa alma, assim como a alma com o nosso espírito, e o nosso espírito com o nosso corpo.

Conta-se uma história de uma criança que puxando assunto com o pastor, disse que gostaria de se mudar para a igreja, ao que o pastor lhe questiona: “Porque meu filho?”, e o menino responde: “Porque o meu pai aqui se transforma em um santo.”.

A comunhão central envolve todo o nosso ser, ou seja, tudo o que somos deve trabalhar pelo mesmo objetivo. O que somos na igreja, devemos ser em casa, o que somos em casa, devemos ser no trabalho, o que somos no trabalho devemos ser na escola. Isso é comunhão central.

Por isso que o apóstolo Paulo alerta aos irmãos de Corinto que antes de tomarem da Ceia do Senhor, para que examinassem a si mesmos.

Deus nos chamou para sermos luz e sal desta terra. Não podemos brilhar em um lugar e apagar em outro, ou temperar em algum momento e se tornar insípido em outro. O Senhor te chama agora para que busque a comunhão consigo mesmo.

E toda essa comunhão tem um propósito principal: louvar a adorar a Deus. O salmista continua dizendo que ainda louvaria ao Senhor, porque ele sabia que entraria em comunhão com ele mesmo.

Nossa adoração deve abranger todo o nosso ser: corpo, alma e espírito. Paulo disse que seja o que for que façamos, devemos assim fazer para a glória de Deus. Recentemente fiquei curioso por entender o porque os judeus, no muro das lamentações, movimentam-se totalmente. Da cabeça aos pés enquanto estão orando. Eu descobri que eles fazem conforme o salmo 35.10, que diz: “Kol atzmolai tomarná (todos os meus ossos falarão)”, aí eu entendo que a comunhão central é necessária para a adoração ao nosso Deus.

COMUNHÃO HORIZONTAL

Na carta de Paulo aos efésios, encontramos menção sobre a comunhão entre os irmãos. Paulo diz: “Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3). O apóstolo traz uma particularidade em suas cartas, todas elas possuem um excelente equilíbrio entre doutrina e dever, e efésios não é diferente. Para qualquer prática, antes é preciso lançar os seus alicerces, e neste caso a doutrina do Corpo de Cristo, mencionada em capítulos anteriores.

Unidade não é conformidade. A unidade é de origem interior e constitui uma graça espiritual, enquanto a uniformidade é resultante de pressão exterior.

É importante notar que o verbo “procurando” no versículo 4, significa “esforçar-se constantemente”, ou seja, para que a comunhão seja mantida é preciso um esforço diário, e para isso o apóstolo lança as prerrogativas:

1. Humildade: “é a graça que perdemos quando descobrimos que possuímos.” É colocarmos Jesus em primeiro lugar, os outros em segundo e nós por último. Apenas na fé cristã a humildade é reconhecida como virtude, as outras religiões a consideram como falta de honra. Humildade é o reconhecimento de si mesmo, assim como Abraão o fez em Gn 18.27.

2. Mansidão: não é fraqueza, mas poder sob controle. Moisés era um homem manso (Nm 12.3), e ele era fraco? O termo grego para tal é o mesmo utilizado para um animal adestrado que obedece as rédeas e a voz de comando. O ovelha é um animal único: os outros fogem, escoiceiam, dão chifradas, gritam. Ela espera, não se defende, se chegar a hora da morte simplesmente chora (Is 53.7). Jesus era “manso e humilde de coração” (Mt 11.29).

3. Longanimidade: Aquele que demora para irar-se. Resistência paciente de provocações e provações. Crisóstomo traz uma definição interessante, ele diz que o homem de espírito longânimo, paciente, é aquele que tem o poder de vingar-se, mas nunca o faz.

4. Amor: o mais importante elemento para a comunhão cristã. É fundamental na verdadeira religião, e a forma mais elevada de amor, é o amor espiritual, segundo Paulo, “o caminho mais excelente” (1Co 12.31b, 13vss). O amor é a essência da harmonia, a essência da vida (1 Jo 3.14), a essência do serviço.

Nossa comunhão horizontal, está baseada nestas quatro premissas. Mas existe uma comunhão que está acima de todas as duas já mencionadas, sem a qual nossa vida não faz sentido algum.

COMUNHÃO VERTICAL

É a comunhão, a intimidade e a experiência com a trindade. A comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

De acordo com um costume tribal, compartilhar uma refeição era um ato de comunhão, e os essênios, em Qumran, comiam ritualmente refeições comunitárias que poderiam ser compartilhadas apenas pelos membros efetivos que haviam com sucesso, completado três anos de experiência. Isso é fantástico, e por isso entendo que Jesus na última ceia, e a ceia lembrada como a referência da comunhão, foi realizada após três anos de ministério, onde seus discípulos estavam com Ele durantes estes três anos: andando juntos, orando juntos, chorando juntos, sofrendo juntos, trabalhando juntos, pregando juntos, jejuando juntos. E com isso entendo que hoje, comunhão, no sentido espiritual, está ligada não ao tempo que estamos na igreja, mas da intimidade e experiências que temos com Ele.

Não encontro uma passagem tão completa sobre o assunto, quanto à passagem da Videira Verdadeira em Jo 15.

Após o dilúvio, Noé (Gn 9.20) foi a primeira pessoa a cultivar uvas. A vinha era plantada e crescia em uma treliça ao longo da casa, provendo assim sombra para os dias quentes de verão (1Rs 4.25). Em Isaís 5.1-5, encontramos o processo para se cultivar a vinha. A videira tinha grande importância na religião de Israel, ela era usada como símbolo da vida religiosa do povo, e um cacho de uva era rotineiramente encontrado em esculturas nas sinagogas. Videira e varas são distintas: da videira vem a vida, das varas, como resultado, os frutos. Além do fato de ter que produzir frutos, a videira não possui nenhuma outra utilidade, a não ser servir de combustível (Ez 15.6).

Este discurso de Jesus se deu no caminho ao monte das Oliveiras, logo após a saída da última ceia, e talvez tenha sido iniciado pela visão de várias videiras durante o caminho.

Este é o último discurso onde Jesus utiliza o “Eu sou”. Ele antes havia se declarado como “Eu sou o pão da vida”, “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou antes de Abraão”, “Eu sou o bom pastor“, “Eu sou a ressurreição e a vida”, “Eu sou o caminho a verdade e a vida” e por último “Eu sou a videira verdadeira”.

Existem três tipos de videiras: a do passado (Sl 80.8), a do futuro (Ap 14.14-20) e a do presente (Jo 15) e inclui seus ramos.

Jesus exprime a idéia de verdadeira, pois o povo judeu acreditava que eles eram a videira, mas Jesus está dizendo que o povo não é videira, mas Ele sim é a videira verdadeira, e que a salvação só se encontra na ligação com Ele.

Jesus exprime a idéia de verdadeira, pois o povo judeu acreditava que eles eram a videira, mas Jesus está dizendo que o povo não é videira, mas Ele sim é a videira verdadeira, e que a salvação só se encontra na ligação com Ele.

A videira não tem uma aparência externa bela e promissora, e a videira é uma planta que se propaga.

Nós devemos produzir frutos. De uma videira se espera uvas, de um cristão, cristianismo. Como sabemos se estamos em comunhão com Cristo. Em primeiro lugar, se estamos frutificando, em segundo lugar sentimos o “Agricultor” nos podando.

O Agricultor, tem a responsabilidade de cuidar das videiras. É Ele quem limpa ou poda os ramos. O Agricultor poda os ramos de duas formas: corta a madeira morta, evitando proliferação de doenças e acúmulo de insetos e remove partes ainda vivas, para que a vitalidade da planta não se dissipe. O momento da poda, é a parte mais importante do cultivo.

O momento em que o Pai mais se aproxima de nós, é quando está nos podando.

Onde fica o Espírito Santo? Sabemos que a videira possui suas raízes escondidas, e a única coisa que aparece, são os ramos. Cristo não aparece, mas nós, como ramos devemos apresentá-lo em nossas vidas e frutos. Mas não conseguimos nada sozinhos, precisamos sempre da vida vinda da raiz, e quem traz a seiva da raiz até os ramos é o Espírito Santo.

A comunhão com a trindade gera frutos.

Mensagem ministrada em Mogi Mirim-SP, na Igreja Avivamento Bíblico em uma conferência missionária