INTRODUÇÃO

A lição começa com o texto áureo que diz: “A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de  violência” (Gn 6.11). O termo violência utilizado aqui, vem do hebraico חָמָֽס׃ (châmâs), e pode significar violência, erro, crueldade ou injustiça, e é utilizado cerca de 60 vezes em todo o Antigo Testamento, tendo o versículo citado como sua primeira referência.

O termo, segundo o dicionário Vine, tem uma conotação de “uma ‘maldade violenta’ que não foi corrigida, sendo que a culpa da qual se encontra numa região inteira (seus habitantes) que quebraram sua relação com Deus, e assim, interferiram com suas bênçãos”. Orlando Boyer define violência como uma “força que abusivamente se emprega contra o direito“.

Em Malaquias 2.16, vemos que Deus odeia a violência e por este motivo, o dilúvio foi a resposta divina à um mundo cheio e corrompido por ela (Gn 6.11).

Quando leio este versículo, que faz referência à uma época remota, parece-me perfeitamente aplicável aos dias atuais. Basta ligar a TV e assistir os noticiários que verá que, parafraseando o versículo, “a terra está corrompida diante da face de Deus, e a terra está cheia de violência”. Mas temos um consolo, pois o Salmo 91.1 diz: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará“.

A VIOLÊNCIA IMPERA SOBRE A TERRA
A origem da violência

Já mencionamos em lições anteriores que o mal teve início na queda, rebelião de Adão e Eva contra Deus. A violência é uma das consequências deste mal que surgiu. A Bíblia fala que Adão e Eva tiveram filhos: o primeiro Caim e o segundo Abel.

Caim foi o filho mais velho de Adão, o primogênito da raça humana caída. Assim como seus pais, Caim passou a ser cultivador do solo. Quanto ao seu nome, não há certeza de sua origem, embora pra alguns intérpretes esteja relacionado à forja de metais, outros ainda dizem que tem o sentido de lança, porém na etimologia popular, é mais conhecido o termo hebraico adquirir.

Abel foi o segundo filho homem de Adão e Eva, e diferentemente dos pais e do irmão mais velho, não se tornou um cultivador da terra, mas pastor de ovelhas. Sendo assim, entendemos que a agricultura é uma prática anterior à pecuária. Alguns supõem que Abel fosse irmão gêmeo de Caim (J. D. Douglas), mas a tradição judaica não confirma isso. Seu nome pode significar vaidade, vapor, em vão, um sopro, aflição.

Estes dois irmãos, segundo Flávio Josefo, possuíam ainda três irmãs, e o Midrash explica melhor dizendo que uma era gêmea de Caim e as outras duas gêmeas de Abel.

A Bíblia diz que Caim e Abel foram oferecer sacrifícios à Deus, e que o Senhor aceitou a Abel e a sua oferta, mas para Caim e sua oferta houve rejeição de Deus. E após este episódio, Caim matou Abel seu irmão, dando à luz ao primeiro assassinato sobre a face da terra. Não entraremos em detalhes sobre a não aceitação de Deus para a oferta de Caim, pois se olharmos a Bíblia ela diz que, segundo Merril Tenney, “Deus primeiro inspecionou o homem e, então considerou a oferta“, sendo assim, Deus primeiramente rejeitou Caim e por isso não se atentou para a sua oferta, porém quero discutir melhor sobre as motivações de Caim para assassinar seu irmão Abel.

Muitas são as conjecturas sobre os motivos de Caim ter matado Abel. Uns acreditam que a rivalidade entre os nômades e os fazendeiros era um dos motivos, outros acreditam que Abel, em toda a sua vida passou a pensar em uma forma de fazer as pazes com Deus pelo pecado de seus pais, enquanto Caim preocupava-se consigo mesmo e isso teria deixado Caim irado. Ainda o Midrash diz que Caim havia se casado com sua irmã gêmea, e Abel também com uma de suas irmãs gêmeas e uma terceira irmã havia ficado solteira, e Caim, movido pelo desejo desenfreado, queria casar-se com esta irmã mais nova, e por isso arrumou uma forma de se livrar de Abel. Existem ainda outros pensamentos à respeito, mas não temos espaço pra isso neste post.

Seja qual for o real motivo, isso não nos importa muito, pois acreditamos que o importante é que o Senhor aceita a oferta de quem é justo (Mt 23.35) e a oferece pela fé (Hb 11.4).

A multiplicação da violência

A violência iniciada por Caim, gerou frutos posteriores. Lameque, um dos descendentes de Caim, tornou-se um assassino cruel também, além de ser o primeiro polígamo entre os homens. É interessante que a violência física, gera violência moral, que gera violência física e assim a violência vai se multiplicando.

Lameque era um homem que não confiava em Deus, mas somente em suas armas, e nele, a tendência de Caim, de uma obstinada alienação em relação à Deus, alcança o seu clímax.

Devido à esse aumento da maldade sobre a face da terra, Deus destruiu toda a criação. A árvore genealógica de Caim, termina com a família de Lameque, cujas realizações de seu ancestral Caim e dele eram admiradas pelo mundo mal daquela época, mas Deus as eliminou para sempre através do grande dilúvio.

Tudo o que é mal e do mundo, será destruído, mas o que é do Senhor é preservado. Da linhagem de Caim, não restou ninguém, mas da linhagem de Sete (irmão de Caim), sobraram Noé e sua família. É como diz João: “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 Jo 2:17).

A violência na sociedade atual

Segundo Alexandre Coelho, “Vivemos em uma época em que a sociedade ainda paga o preço de ter olvidado a doutrina bíblica do pecado original, substituindo-a pela crença do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) de que ‘o homem é naturalmente bom; são as instituições que o corrompem’“.

Ele continua dizendo: “Ora, não admitir uma realidade não muda essa realidade. Não admitir o pecado original não muda o fato de que nós, seres humanos, somos pecadores, somos inatamente tendentes ao pecado. Por isso, os intelectuais modernos tiveram que criar um discurso para tentar explicar e justificar teoricamente a existência marcante e crescente do mal no mundo“.

Se o avanço da medicina e do saneamento diminuíram o número de mortos por doenças, o mesmo não pode ser dito em relação à violência nas cidades.

Nós tivemos uma grande melhoria nas políticas públicas contra a violência, mas as estatísticas mostram que mesmo assim a violência tem aumentado.

Se o homem praticaria maldades apenas por falta de educação adequada, devido à pobreza ou outras condições sociais indesejáveis, por que a violência no mundo teria aumentado apesar da melhora das condições sociais?

Não adianta tentarmos “tapar o sol com a peneira”, enquanto não estivermos cônscios do pecado original e de sua abrangência, a violência continuará imperando em nosso meio.

Paulo diz que não devemos nos conformar com este mundo (Rm 12.1-2), isso quer dizer que não devemos nos conformar com o que o pecado tem feito com a nossa sociedade, e devemos saber que a pregação da cruz pode eliminar das vidas muitos dos efeitos do pecado original, conforme diz William Durham, um batista que se tornara pentecostal: “o problema do pecado original recebera o golpe fatal na crucificação de Cristo“. (Veja mais: Pentecostalismo, uma perspectiva histórica).

Querem paz, mas viraram as costas para o príncipe da paz: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6).

VIOLÊNCIA UM PROBLEMA DE TODOS
Quando o crente é perseguido

Em Mateus 5.10-12, temos um texto interessante da fala de Jesus incluído no tão conhecido sermão das “Bem Aventuranças”, os versículos são esses: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós“.

Jesus sempre deixou claro, que “não tinha vindo para tornar a vida fácil, mas para tornar grandes os homens” (Barclay). Quando olhamos para a vida dos primeiros cristãos, fica difícil de entendermos as dificuldade que passaram por se tornarem seguidores de Cristo. Muitos perderam seus trabalhos ou eram forçados a deixar devido ao que produziam nos mesmos. Além da vida profissional, sofriam em sua vida social: como partilhar dos costumes pagãos agora que se tornaram cristãos? Eram também sofredores, pela causa de Cristo, em sua vida familiar: esposa se converte, esposo não, filho se converte, pais não.

E quantas atrocidades sofreram os primeiros crentes, basta conhecer as literaturas que falam sobre as perseguições (recomendo a literatura: O livro dos Mártires).

É claro que hoje, no Ocidente, não sofremos violência física como no passado por conta de nossa fé, mas sofremos sim, violência psicológica e emocional. Por isso estamos cientes de que não é fácil ser um cristão consagrado. Nossa sociedade não tem amizade com Deus nem com o povo de Deus. Quer gostemos quer não, estamos em conflito com o mundo, pois somos diferentes e temos atitudes diferentes.

Mas Jesus disse que somos “bem-aventurados”; este termo vem do grego makarios, e significa abençoado, feliz. Mas como ser feliz, abençoado diante das perseguições, injúrias, calúnias? Só entende a resposta, os que têm olhos além do tempo presente:

  1. Porque na perseguição temos a oportunidade de demonstrar nossa lealdade à Cristo. Sabe aqueles momentos difíceis, onde nossa fé pode chegar a nos custar algo? Então, são os momentos em que nos é dado demonstrar nossa lealdade a Jesus Cristo, de maneira tal que todos possam ser testemunhas da fé que professamos;
  2. Porque na perseguição, transitamos pelo mesmo caminho que percorreram os profetas, santos e mártires, e por direito participar de suas grandes honras espirituais;
  3. Porque sofrer perseguição, é contribuir para o bem-estar dos que virem após nós. Hoje desfrutamos de liberdade e paz porque houve homens e mulheres no passado que estiveram dispostos a conquistá-las para nós a custo de sangue, suor e lágrimas;
  4. Porque na perseguição sentimos com muita força que não estamos sozinhos, são nestes momentos que sentimos verdadeiramente a presença de Jesus ao nosso lado. Lembro-me da passagem dos amigos de Daniel, quando lançados na fornalha. Nabucodonosor disse: “Não foram três varões lançados dentro da fornalha?“, responderam à ele: “Sim“, então ele replicou: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (Dn 3:19-25).

Fique com as palavras de Jesus: “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós“.

A ação do bom samaritano

A parábola fala de um nomikos, um especialista da lei, tanto da Torá escrita quando da tradição oral. Este especialista tem a intenção de colocar Jesus à prova, questionando o Mestre sobre o que ele teria que fazer para “herdar a vida eterna”. Jesus como um bom judeu e mestre, responde a pergunta com uma contra-pergunta: “que está escrito na lei? como lês?”. O especialista então responde corretamente,  e faz uma outra pergunta: “quem é meu próximo?”, pois os judeus, usavam o termo “próximo” para significar “israelita da mesma categoria”, pois o contexto imediato de Lv 19.18 quer dizer isso. Esta foi a oportunidade de Jesus contar a parábola, conhecida como a “parábola do bom samaritano”.

Esta parábola tornou-se parte de nossa cultura e de nosso vocabulário. Ela concentra-se por si mesma no samaritano, apresentando 4 atos: a cena inicial, o sacerdote, o levita, e o samaritano.

Klyne Snodgrass diz que a parábola foi influenciada por 2Cr 28.8-15, e possivelmente, por Os 6.1-11, apesar dos contatos com o segundo texto serem menos instigantes.

A parábola começa com a estória de um homem que descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos saltadores.

O declive para quem viaja de Jerusalém até Jericó é de cerca de 40 metros por quilômetro, com um terreno estéril, quase sem vegetação e montanhoso, com vários locais que poderiam ser utilizados como esconderijo de bandidos ao longo desta estrada  notavelmente traiçoeira. E as hospedarias frequentemente eram vistas como lugares perigosos para os viajantes que precisavam de abrigo, mas eram poucas as outras opções. Os dois denários, entregues ao dono da hospedaria, eram suficientes para prover cama e comida por aproximadamente duas semanas.

A parábola fala que um sacerdote, também descendo viu o violentado e nada fez. De igual modo, um levita vendo o homem todo machucado, também não fez absolutamente nada. Mas que um samaritano, de viagem, ia passando e se compadeceu do homem, vítima dos assaltantes e providenciou o resgate.

Nesta parábola, cinco pessoas, com exceção dos ladrões, são mencionadas, pela ordem: o homem assaltado, o sacerdote, o levita, o samaritano e o dono da hospedaria. O foco principal desta parábola está sobre o samaritano, pois Cristo desejava ensinar algo com esta parábola ao especialista da lei.

A aplicação da parábola pode ser assim:

Para o sacerdote e o levita, descritos na parábola, próximo, referia-se à um judeu claramente identificado, mas alguém assaltado, espancado, nu e moribundo, simplesmente não se qualificava como tal.

Jesus não contou uma história de um judeu que encontrou um samaritano ferido, nem a história de um sacerdote, um levita e um israelita, mas apresentou um samaritano, para surpreender o ouvinte, sendo o protagonista de toda a trama.

Portanto, Jesus não centraliza-se no próximo, mas sim o único que mostrou amor e compaixão. Por isso esta parábola é atemporal, por praticar uma boa ação é possível em todos os tempos é épocas e para todas as pessoas. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, é uma ordem que alcança além de nosso círculo de amigos e companheiros cristãos.

São variadas as interpretações sobre esta parábola, mas prefiro ficar com a do nosso amado irmão Tiago, que não foi uma interpretação da parábola, mas uma ordem à cumprir a essência da mesma: “Tornai-vos pois, praticantes da palavra , e não somente ouvintes” (Tg 1.22). E qual é a palavra na parábola a ser praticada?

Amarás o teu próximo como a ti mesmo

A igreja deve denunciar a violência através de ações

Nós como cristãos, sabemos que não podemos evitar todas as ações violentas e que elas podem recair sobre todos, inclusive aos cristãos. Mas podemos sim, auxiliar as vítimas das atrocidades que o homem é capaz de cometer. Como Igreja, temos portanto, algumas obrigações referentes à este assunto:

  1. Clamar a Deus por proteção divina e que o Senhor faça com que os homens que administram o poder público cumpram com suas obrigações legais de prevenir a violência (1Tm 2.1-2,8);
  2. Clamar a Deus para nos preparar com o propósito de acolher as vítimas das violências, trazendo para cada uma delas alívio espiritual, moral e emocional (Lc 10.36-37);
  3. Não nos acomodar com a realidade da violência, mas combatê-la e condená-la (Ef 5.11);
  4. Sermos um agente de paz (Mt 5.9);
  5. Devemos nos precaver do mal e confiar no Senhor, crendo que Ele é a nossa proteção (Sl 121.1-8);
CONCLUSÃO

Para concluir, quero reafirmar que estamos sujeitos à violência, bem como nossos entes e amigos queridos, mas nunca devemos nos esquecer que temos junto de nós, um Deus bondoso e que é justiça. Ele nos consolará e nos restaurará para a glória do Seu Nome.

Deixo-vos as palavras do apostolo Pedro:

…porque ele tem cuidado de vós. (1Pe 5.7)