Lições Bíblicas | 2º Trimestre de 2012 | As sete cartas do apocalipse | Lição 6 : Tiatira, a Igreja tolerante

PREFÁCIO

Tiatira faz parte das 7 cidades, cujas Igrejas, receberam cartas escritas por João inspirado por Cristo. A Igreja de Tiatira já estava com 40 anos de existência quando recebeu a carta.

Tiatira pode aignificar: “Um perfume”, “sacrifício do trabalho”, “odor da aflição” (o mais original).

Matthew Henry divide o conteúdo da carta em 5 partes:

1) A natureza honrada e o elogio que Cristo faz à Igreja;
2) Uma censura conscienciosa do que estava faltando;
3) O castigo da mulher apelidada de “Jezabel”;
4) O propósito da destruição de “Jezabel” e seus seguidores;
5) Encorajamento àqueles que se mantêm puros e não se mancham

A carta está completamente dentro do modelo de todas as outras cartas enviadas às outras 6 Igrejas, onde o modelo é o que se segue:

Igreja

Característica

Descrição de Jesus

Responsabilidade Requerida

Éfeso, a constante

Trabalha arduamente, persevera, rejeita a maldade, resiste porém, deixou o primeiro amor

Ele anda entre as sete lâmpadas (está no céu)

Voltar ao primeiro amor

Esmirna, a perseguida

Sofre, está em pobreza, suporta perseguição

Ele que foi morto e reviveu

Permanecer fiel

Pérgamo, a moralmente comprometida

Retém a verdade, e é fiel até a morte, mas tolera a imoralidade

Segura uma espada aguda de dois fios

Arrepender-se dos maus caminhos

Tiatira, a doutrinariamente comprometida

Trabalha mais que antes, mas tolera a imoralidade e os falsos ensinos

Olhos de fogo e pés de bronze

Conservar a verdade

Sardes, a falsa

Supostamente vive, mas espiritualmente morta; obras incompletas

Tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas

Despertar, obedecer ao que já ouviu

Filadélfia, a obediente

Tem pouca força, mas tem mantido a Palavra; sofre com paciência

Tem a chave de Davi (autoridade messiânica)

Guardar o que tem

Laodicéia, a materialista

Nem fria nem quente, rica, porém pobre espiritualmente

Soberano da criação

Ter zelo, arrepender-se através da disciplina

 

Após esta visão geral sobre o contexto onde está inserida a carta, vamos à lição.

INTRODUÇÃO

Não há amor ou trabalho sacrificial que compense a tolerância do mal. Parece que a compreensão do que é o verdadeiro amor cristão gerava conflitos na vida dos crentes daquela época. O comentarista da revista contrasta duas Igrejas onde o amor é destacado. Em Éfeso, o amor é destacado como escasso, sem existência, já em Tiatira o amor é mencionado como em excesso, porém, deformado, falho.

Mas o que deveria ser o verdadeiro amor na Igreja?

No caso de Éfeso, a acusação era que a Igreja havia abandonado o primeiro amor. Éfeso era uma Igreja operante, realizava grandes obras, com labor e perseverança, mas não era mais motivada pelo amor à Cristo (1Ts 1.3). O que fazemos para o Senhor é muito importante, mas a motivação para o que fazemos é mais importante ainda. O que era esse primeiro amor? W. Wiersbe conceitua esse primeiro amor assim: “é a devoção à Cristo que caracteriza, com freqüência, o recém-convertido: fervorosa, pessoal, desinibida, empolgada e demonstrada abertamente. É o amor da ‘lua-de-mel’ de um casal (Jr 2.1-2)”.

Se por um lado, Éfeso era acusada pela ausência do amor requerido, Tiatira sobejava em amor, mas era um amor omisso, como diz o próprio comentarista: indulgente. O verdadeiro amor para Tiatira, deveria ser aquele pautado em Rm 12.1-2, onde o apóstolo nos conclama à não conformidade com aquilo que desagrada à Deus.

Lembremos que os dois extremos devem ser evitados dentro da Igreja. O equilíbrio bíblico é “dizer a verdade em amor” (Ef 4.15).

É sobre essa omissão da Igreja de Tiatira que a lição está baseada. Tiatira, uma igreja tolerante.

A IGREJA EM TIATIRA

A cidade de Tiatira

A cidade de Tiatira não era uma cidade muito importante. Francis Davidson diz que era a menor de todas as cidades e não possuía nenhum templo devotado ao culto dos imperadores, o que isentava, de certa forma, a Igreja da cidade de perseguições por desobedecer aos chefes de estado.

Não possuía culto aos imperadores, mas muitas divindades eram adoradas ali. A Enciclopédia Católica menciona entre os deuses adorados, Esculápio e Baco. A Enciclopédia da Bíblia Padrão Internacional acrescenta que existia um templo dedicado à Sambate. H. Halley afirma que lá existia um suntuoso templo dedicado à Ártemis (Diana). E Wiersbe menciona que existia um templo dedicado à Apolo (o deus sol).

Era também uma cidade militar e um ponto central de comunicação. Merril Tenney diz que era um posto da guarda militar de Pérgamo, fundada por Selêuco I, general de Alexandre, o Grande.

Entre as principais atividades da cidade, Tenney e J. D. Douglas afirmam que Tiatira era um importante centro manufatureiro, de tinturaria, de ornamentos, de feitura de vestes, de cerâmica e de trabalhos em bronze, principalmente armas de bronze, onde se tornou em um famoso trabalho de exportação.

A cidade era destacada por nela encontrar-se um grande volume de guildas, uma espécie de sindicato, grêmio. Barclay traz uma melhor definição do que eram essas guildas: “uniões ou sindicatos de pessoas que trabalhavam num mesmo ramo da indústria ou o comércio e tinham objetivos tanto de mútua proteção e beneficio como de tipo social e recreativo”.

A Igreja de Tiatira

Existiam duas guildas muito fortes na cidade, a dos caldeireiros e a dos tintureiros. Da guilda dos tintureiros, encontramos a nossa irmã Lídia, que foi evangelizada por Paulo em Filipos enquanto vendia suas púrpuras (At 16.14) e que acredita-se que se tornou a responsável por levar o evangelho à sua cidade. Acredita-se também que Paulo possa ter pregado ali (At 19.10), mas isso é incerto, segundo a Enciclopédia da Bíblia Padrão Internacional .

Era uma Igreja forte e materialmente próspera, pois a grande maioria dos membros eram comerciantes de sucesso na cidade e nas regiões vizinhas. Mas a situação da Igreja de Tiatira deve nos levar a pensar.

A IDENTIFICAÇÃO DO DESTINATÁRIO

Filho de Deus

Além de demonstrar para o anjo da Igreja que Jesus era igual ao pai, colocando-se como “Filho de Deus”, este termo, que é usado somente aqui em todo o Apocalipse, foi utilizado para confrontar o orgulho que a cidade tinha em possuir um templo dedicado a Apolo (deu sol).

O original grego (uihos) é usado para identificar a messianidade de Cristo e o apontar como o cabeça de toda a humanidade. Matthew Henry diz que o termo é usado para demonstrar que Jesus “tem a mesma natureza do Pai, mas com uma maneira distinta e subordinada de subsistência”.

Onisciente

Se notarmos, veremos que o termo “como chamas de fogo”, antecede o versículo 23 “que sonda os rins e os corações”, ou seja, que conhece todas as coisas. John Gill comenta dizendo que os “olhos como chamas de fogo” é para alertar a Igreja que por mais escondido e arquivado na escuridão esteja o pecado humano, os olhos do Senhor iluminam as trevas que encobrem o pecado e o traz à luz. Não há nada encoberto diante dos olhos de Jesus. Os olhos do Senhor penetram as trevas e as dissipam.

Supremo Juiz

Enquanto os olhos como chamas de fogo representam a onisciência do Senhor Jesus, o termo “pés como latão reluzente”, segundo John Wesley, simboliza a sua suprema força e poder. Força e poder para julgar como lhe apraz.
Merril Tenney diz que uma moeda em Tiatira mostra Hefesto martelando um capacete em uma bigorna e a palavra utilizada na carta para “bronze polido” (calcolibanos) é encontrada em outro lugar, o que pode demonstrar que era uma marca característica de Tiatira. Já falamos sobre a famosa exportação de armas fabricadas em bronze em Tiatira, mas agora Jesus está dizendo: “Os meus pés são as armas mais poderosas que vocês poderiam ver”.

Para resumir sobre estes dois termos, poderíamos usar a sabedoria que Jó teve para discernir os mesmos quando lemos Jó 42.2 “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido”.

Depois de se apresentar ao anjo da Igreja, Jesus elogia suas boas obras.

UMA IGREJA RICA EM OBRAS

Amor

Este amor é tanto o generalizado, ou seja, praticar a todos os homens, quanto o mais específico que é o fazer bem à casa da fé. Na realidade Matthew Henry estava certo quando disse: “não existe religião em amor”.

Serviço

Ou seja, do ministério. Diz respeito aos obreiros da Igreja, aos que trabalhavam na Palavra e aos que trabalhavam na doutrina. Barnes diz que este serviço inclui todos os serviços prestados em favor da fé, seja motivado por amor próprio ou por amor a Deus.

Aqui não se menciona sobre a doutrina da fé, mas sim sobre a graça da fé, referindo à fidelidade dos crentes, que mesmo privados do conforto, eram fiéis ao que tinham recebido.

Paciência

Refere-se à perseverança dos irmãos, que mesmo sob pressão e aflição, continuaram a fazer o bem. Colocaram a fé na frente do serviço secular.

Abundância em obras

Adam Clarke diz que eles não apenas mantiveram o que haviam recebido, mas que cresceram na graça, conhecimento e amor de Jesus Cristo, o que é muito raro nas igrejas cristãs, onde a tendência é o esfriamento devido à rotina que traz religiosidade.

Olhando para todas estes “elogios” que Jesus dispensou à Igreja de Tiatira, tiraríamos conclusões precipitadas por achar que essa era a igreja ideal. Mas a realidade era outra.

Superficialmente, a Igreja em Tiatira parecia forte e florescente. Qualquer estranho que a visitasse ficaria impressionado com sua vitalidade e energia, por sua aparente liberalidade e paciência. Porém, havia algo essencial que lhe faltava: em seu próprio coração havia uma fissura.

Uma Igreja cheia de gente, um verdadeiro favo de energia, um dínamo de atividade, não é necessariamente uma verdadeira Igreja.

Ao invés de ser uma congregação cristã, a igreja de Tiatira converteu-se em um clube bem sucedido. E todo este problema gerado na Igreja de Tiatira, girava em torno de uma única mulher e suas atividades.

JEZABEL E AS PROFUNDEZAS DE SATANÁS

A Jezabel de Tiatira

Quem era esta mulher? A Jezabel histórica, esposa de Acabe (1 Rs 16 – 19), era idólatra e adúltera. Por causa destas características, serviu para nomear esta mulher em Tiatira com o mesmo nome.

A Igreja possuía um grande problema em Tiatira. As guildas existentes na cidade eram fortes, e qualquer um que se abstivesse de fazer parte das mesmas, estava fadado ao fracasso no comércio.

Mas qual o problema nisso? Isso na realidade causava grandes obstáculos à vida de fé dos cristãos daquela cidade

Os dois grandes problemas da Igreja neste sentido, segundo Barcley, eram:

1) Essas associações freqüentemente celebravam banquetes habitualmente em templos pagãos e a carne consumida, era carne sacrificada à ídolos;
2) Esses banquetes eram apenas a ocasião para atos licenciosos de bebedeiras.

O ministério de Jezabel

Essa mulher possuía um parecidíssimo ministério com o de Jezabel, esposa de Acabe. Essa mulher era acusada, segundo Wiersbe, de ensinar os cristãos a conciliarem-se com a religião romana e às práticas das guildas, com a desculpa de não perderem o emprego e nem a vida. Barcley acrescenta que ela ensinava que os cristãos podiam cometer fornicações e comer a carne que havia sido sacrificada aos ídolos. David Stern vai mais adiante e afirma que ela introduziu práticas de ocultismo e outras práticas demoníacas na igreja.

H. Halley diz que essa mulher teria sido uma devota de Ártemis e que filiou-se à Igreja mas insistia ainda em ensinar e praticar a licenciosidade aos irmãos, alegando inspiração divina para isso.

A obra de Jezabel

Todo esse ministério mencionado acima, demonstra que a obra desta mulher era destruidora, e por este motivo Jesus adverte a Igreja à se arrepender, caso contrário, a congregação seria punida como exemplo para as outras igrejas a fim de não tolerarem o mal.

Mas quem era esta mulher e porque recebeu este nome? Teremos a resposta à essas duas perguntas, quando entendermos as duas colocações abaixo:

1) Em 1 Rs 18.19, a Bíblia diz que os profetas sentavam-se à mesa de Jezabel (esposa de Acabe). Estes profetas eram comprados e comiam à mesa da mulher que os havia corrompido. Aqui não é diferente, os profetas da Igreja em Tiatira, corromperam-se com as doutrinas desta mulher e assentavam-se às mesas dos banquetes idólatras das guildas incentivados por esta promíscua mulher;
2) A Jezabel histórica, era esposa de Acabe, rei de Israel. Acabe era o líder, mas havia perdido seu cajado para a própria esposa idólatra. A Jezabel de Tiatira, era a esposa do pastor da Igreja, que havia perdido sua autoridade, coadunando com sua mulher nas práticas libertinosas da mesma.

CONCLUSÃO

Em sua infinita misericórdia, Deus concedeu um tempo para essa mulher e seus seguidores para se arrependerem, mas estavam tão afundados nas trevas que recusaram-se.

Por causa desta impiedade, Deus a colocaria em uma cama de morte. Deus é amor, mas também é justiça. Não podemos pensar que Deus não traz juízo sobre toda a impiedade, e aqui temos um excelente exemplo disso.

Que o Senhor nos livre do espírito de Jezabel que tem permeado na igreja do Senhor. Sigamos com fé a carreira que nos foi proposta.