Fundamentos da Teologia

Fundamentos da Teologia

A boa teologia é escrita por aqueles que tomam o devido cuidado em deixar que suas perspectivas sejam moldadas pela revelação bíblica.

A Bíblia apresenta as suas verdades em meio aos acontecimentos históricos ao invés de apresentar uma lista sistematizada de suas doutrinas, todavia carecemos sistematizar seus ensinos.

A sistematização deve ser levada a efeito com muito cuidado, prestando-se especial atenção tanto ao contexto quanto ao conteúdo da doutrina bíblica usada em sua elaboração. “Não pode haver nenhuma diferença básica entre a verdade que a comunidade cristã conhece através do Espírito Santo que nela habita, e a que é exposta pela Escritura.” (J. Rodman Willians)

A Natureza da Teologia Sistemática

O Conceito de Religião

Deve-se começar a pensar em teologia sistemática a partir da compreensão que se tem do conceito de religião. Embora esta possa ser definida de várias maneiras, uma das definições mais adequadas é que religião é a busca de valores e verdades supremos e definitivos.

A religião tem assumido muitas formas e expressões no decurso da história da humanidade – desde a especulação filosófica até a criação de deuses na forma de objetos materiais (Rm 1.21-23 [porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.]).

Agostinho (354-430 d.C.) confessou: “Criaste-nos para vós. E o nosso coração está inquieto até que haja repousado em vós.”.

A religião, como a busca do homem por Deus, porém, não consegue fornecer nenhum objeto ou pessoa de derradeiro e supremo valor. Na melhor das hipóteses, a busca termina com alguma deidade inferior ou com uma explicação insatisfatória da existência. E esta, sendo mera criação da mente humana, não basta para elucidar todas as complexidades da existência humana. Neste sentido, a religião acaba por frustrar-se.

H. Orton Wiley, teólogo da Igreja do Nazareno, nota que “a religião fornece a consciência básica do homem, sem a qual, a natureza humana não possuiria a capacidade de acolher a revelação de Deus”. O fato de as pessoas estarem procurando algo proporciona-lhes a oportunidade de lhes apresentarmos as boas novas. Em Jesus poderão achar o que estão procurando.

Tipos de autoridade religiosa

Quais as bases sólidas da fé e da prática? Esta questão pode ser claramente dividida em duas categorias: a autoridade externa e a interna.

A autoridade externa inclui as origens autorizadas que se encontram fora do indivíduo e são:

Canônica: sustenta que as matérias bíblicas, contidas no cânon (39 livros do antigo testamento e os 27 do novo testamento) das Escrituras são a revelação autorizada de Deus. Todas as questões de fé e conduta estão sujeitas à autoridade da Bíblia de modo que os itens da crença teológica devem, ou ter apoio bíblico ou ser repudiados. Uma consideração importante aos proponentes do conceito canônico é que a Bíblia deve ser interpretada corretamente.

Teológica: confia nas confissões doutrinárias, ou credos, da comunidade religiosa global como a fonte da fé e da prática. Tais declarações, em forma de credo, são de valor para a Igreja, todavia, o problema do conceito teológico da autoridade é que tende a elevar as afirmações, em forma de credos, a uma posição superior a da própria Bíblia. Se vierem a suplantar a posição central ocupada pela revelação bíblica, tornam-se fonte de duvidosa autoridade.

Eclesiástica: sustenta ser a Igreja a autoridade última em todas as questões de fé e prática. Não se nega a importância da Bíblia, mas esta, segundo alegam, deve ser interpretada por aqueles que receberam formação especial para desempenhar tal tarefa. Sem desmerecer as posições de liderança estabelecidas por Deus, devemos observar que essa abordagem torna-se passível de corrupção.

A autoridade interna, ao contrário da externa, leva em consideração o que está intrínseco ao indivíduo, e são:

Experiência: o indivíduo relaciona-se com Deus no âmbito da mente, da vontade e das emoções, e os efeitos sofridos em qualquer um desses âmbitos são sentidos, ou experimentados, nos demais, quer subseqüente quer simultaneamente. Não devemos desconsiderar o valor da experiência na captação da revelação divina, por outro lado, toda e qualquer experiência deve estar em sintonia com o que a autoridade canônica reza.

Razão humana: o racionalismo diz que não precisa da revelação divina; nega a realidade desta revelação. Aplicar a razão ao conteúdo bíblico, têm se mostrado mais do que útil para se entender a revelação divina. A razão, portanto, é de grande auxílio no conhecimento da revelação de Deus, mas não tem a primazia sobre esta.

As afirmações encontradas nos credos e nas declarações doutrinárias da Igreja são ajudas valiosas na interpretação e aplicação da Bíblia. A experiência individual, especialmente se inspirada e dirigida pelo Espírito Santo, bem como a razão humana, também ajudam o crente a entender a revelação divina. Nem por isso a Bíblia deixa de ser a única regra infalível e suficiente de fé e prática.

Cremos, portanto, que a teologia é mais bem considerada quando a Bíblia é reconhecida como a autoridade suprema.

Uma definição de teologia

Uma definição feita com simplicidade afirma que a teologia é o estudo de Deus e do seu relacionamento com tudo o que Ele criou.

Embora a matéria fundamental da teologia seja tirada da Bíblia, a teologia também se interessa pela comunidade de onde surgiu a revelação e com a comunidade para a qual a mensagem será transmitida.

No campo da teologia, existem várias divisões, na qual a teologia sistemática está inserida.

Existe a teologia histórica, que analisa o desenvolvimento histórico das informações doutrinárias estudando o contexto histórico dos livros da Bíblia e de toda a comunidade histórica do judaísmo e do cristianismo.

Existe também a teologia exegética que enfatiza o emprego das ferramentas e técnicas interpretativas corretas a fim de poderem interpretar corretamente a mensagem dos textos sagrados. Outra divisão é a da teologia bíblica, que através dos resultados da teologia exegética, busca isolar os ensinamentos em determinados contextos, usualmente livro por livro, autor por autor, ou em agrupamentos históricos levantando teses textuais.

Ainda dentro deste campo da teologia, existe também a teologia prática que coloca as verdades da investigação teológica em prática na vida da comunidade dos fiéis. Inclui pregação do evangelho, ensinamento doutrinário, evangelismo se estende à ética.

Já a teologia sistemática desempenha um papel vital dentro da teologia como um todo. Aproveita os dados descobertos pelas teologias histórica, bíblica e exegética e organiza os resultados dessas teologias numa forma facilmente transmitida.

A teologia prática, portanto, faz uso das verdades organizadas pela teologia sistemática, quando o corpo de Cristo ministra.

Sistemas Teológicos Protestantes

Dentro do protestantismo há vários sistemas teológicos. Examinaremos cinco deles que se destacam desde a Reforma.

  1. Calvinismo: Deve seu nome e suas origens ao teólogo e reformador francês João Calvino (1509-1564). Sua doutrina central é a soberania de Deus sobre toda a criação. Além da doutrina central, possui ainda cinco teses centrais: Total depravação, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível, Perseverança dos santos.
  2. Arminianismo: O teólogo holandês Jacob Arminius (1560-1609) discordou das doutrinas do calvinismo, argumentando que tendem a fazer de Deus o autor do pecado, por ter Ele escolhido, na eternidade passada, quem seria ou não salvo e negam o livre arbítrio do ser humano, por declararem que ninguém pode resistir à graça de Deus. A maioria dos pentecostais tende ao sistema arminiano de teologia tendo em vista a necessidade do indivíduo em aceitar pessoalmente o Evangelho e o Espírito Santo.

  3. Teologia da Libertação: Seu interesse primário é a reinterpretação da fé cristã do ponto de vista dos pobres e dos oprimidos. Alegam que o único evangelho que lida corretamente com as necessidades desses grupos é o que proclama a libertação destes da pobreza e da opressão.

  4. Evangelicalismo: Tem hoje uma influência mui considerável. O próprio nome revela-nos uma das preocupações centrais do sistema: a comunicação do evangelho ao mundo inteiro. As expressões teológicas do evangelicalismo provêm, indistintamente, de arraiais calvinistas e arminianos.

  5. Pentecostalismo: Considera que a expressão produzida pela operação do Espírito Santo acha-se abaixo da Bíblia no que tange à autoridade. A experiência enfatiza e confirma as verdades da Bíblia, e essa função do Espírito é importante e crucial.

O Método Teológico

A Exegese e a Teologia Bíblica como Matriz

Várias etapas de desenvolvimento existem neste processo teológico, onde a pessoa passa da Bíblia à teologia sistemática.

  1. A exegese e a interpretação dos textos individuais;
  • A síntese destas interpretações em conformidade com algum sistema de teologia bíblica;

  • A apresentação destes ensinos na linguagem do próprio teólogo sistemática, visando suas próprias necessidades e as do povo.

  • Para manter o nível da autoridade bíblica no decurso da elaboração da teologia sistemática, é necessário que a pessoa que elabora tais estudos evite a dedução. O estudo exegético cuidadoso do texto bíblico deve levar (sem deduções) a uma declaração teológica.

    A natureza e a função da Exegese

    O alvo da Exegese é deixar as Escrituras dizerem o que o Espírito Santo pretendia que se dissesse no seu contexto original. O intérprete deve analisar o contexto social e histórico, o gênero literário e outros fatores afins, e a luz lançada sobre os idiomas originais.

    Quanto ao contexto social e histórico, o escritor bíblico pressupunha que seus ouvintes possuíam certa base cultural e histórica comum a todos. Entre o intérprete e qualquer texto bíblico há vastas diferenças culturais e históricas.

    Devemos tomar também consciência do gênero literário, do tipo específico de documento ou forma literária que estamos examinando, pois a Bíblia é composta por vários gêneros literários: narrativa histórica, poesia, evangelho, cartas, apocalipse, profecias.

    Dentro deste contexto, outro campo de interesse, é o significado das palavras bíblicas.

    O contexto, portanto, é de máxima importância. Determinada palavra pode possuir grande variedade de significados, mas, num contexto específico, somente um deles será válido.

    Crítica, Interpretação e Teologia Bíblica

    A crítica bíblica foi desenvolvida depois da Reforma. As duas divisões principais da crítica bíblica são usualmente chamadas de crítica histórica e crítica textual.

    A crítica histórica ajuda-nos a conhecer com mais exatidão o contexto social e cultural de um texto ou livro da Bíblia.

    A crítica textual é a ciência que examina as cópias feitas à mão (manuscritos) da Bíblia em hebraico, aramaico e grego, e que procura recuperar o que os escritores inspirados realmente escreveram. Ela se utiliza de métodos objetivos e científicos para chegar ao resultado mais correto.

    Quando nos ocupamos da crítica bíblica, o ideal é não atacarmos a Bíblia, como muitos fazem. Pelo contrário, devemos atacar o nosso próprio modo de entender a Bíblia a fim de harmonizar nossa interpretação com o significado original das Escrituras.

    O teólogo conservador, como os pentecostais, vêm já há algum tempo aplicando o que podemos chamar de “crítica narrativa”, pois crêem estar a narrativa arraigada à história. Ao proceder a narrativa, o autor sagrado foi orientado pelo Espírito Santo na seleção daquilo que serviria ao seu propósito omitindo o restante.

    A narrativa e o estilo indireto são contrastados com os tipos de literatura que comunicam de modo direto. Na comunicação direta, o autor ensina na primeira pessoa de maneira proposicional. A Bíblia contém teologia, tanto narrativa, quanto proposicional.

    Pressuposições do Intérprete e do Teólogo

    Finalmente, é importante examinarmos o que nós, intérpretes, trazemos de nosso mundo, e acrescentamos (pressuposições) ao texto.

    É importante, portanto, que o pentecostal tenha uma base e um ponto de referência realmente bíblicos e pentecostais.

    1. Crer no sobrenatural. O pentecostal não é materialista e nem racionalista, mas reconhece a realidade da dimensão sobrenatural;
  • O ponto de referência do pentecostal deve ser a revelação que Deus fez de si mesmo. O pentecostal acredita ser a Bíblia a forma autrorizada de revelação. Porém, o conhecimento racional das Escrituras não substitui a experiência pessoal da regeneração e o batismo no Espírito Santo, apesar de que a experiência pessoal deve estar pautada na Bíblia. Não podemos inibir a obra do Espírito Santo. Na realidade, não é a teologia e nem a cultura que inibe a obra do Espírito Santo, mas o ponto de referência teológico e educacional.

  • Fonte: Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal. Horton, Stanley (CPAD) 5° edição – 1999