Introdução

Uma ilustração marcante da humanidade e divindade concorrentes de Jesus pode ser encontrada em suas próprias palavras, em João 8. No versículo 40 (“Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isto.“), Ele fala como homem, já no 58 (“Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.“) como Deus. Não há confusão das duas naturezas, e uma não absorve a outra, porém a discussão sobre este tema, tem se tornado cada vez mais constante e tem invadido o seio das igrejas pentecostais, inclusive a Assembléia de Deus.

O nome que se dá à união entre o humano e o divino na encarnação de Cristo é: União Hipostática. Vejamos, teologicamente, como isso se explica.

Entender adequadamente esta doutrina depende da completa compreensão de cada uma das duas naturezas e de como se constituem na única Pessoa.

A humanidade de Cristo

O ensino bíblico acerca da humanidade de Jesus revela-nos que, na encarnação, Ele tornou-se plenamente humano em todas as áreas da vida, menos na prática de um eventual pecado. Uma das maneiras de nos convencermos da completa humanidade de Jesus é esta: os mesmos termos que descrevem aspectos diferentes da humanidade também descrevem o próprio Jesus. Por exemplo, o Novo Testamento frequentemente usa a palavra grega pneuma (“espírito”) para descrever o espírito do homem; e a mesma palavra é empregada para Jesus. Ele mesmo aplicou a si o “pneuma”, quando, na cruz, entregou o seu espírito ao Pai e expirou (Lc 23.46).

No contexto, a palavra “espírito” (pneuma) forçosamente indica o aspecto da existência humana que continua na eternidade, depois da morte. Este fato é muito importante, porque foi como ser humano que Jesus morreu. Como Deus Filho, Ele vive eternamente com o Pai. Na experiência que Jesus teve da morte, temos uma das comprovações mais poderosas de que a sua humanidade foi completa. Ele era tão humano que sofreu a morte de um criminoso.

O Jesus encarnado possuía também alma humana. Empregava a palavra grega psuchê para descrever o que ocorria no seu íntimo e as suas emoções, em Mateus 26.36-38:

Então, chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então, lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo.

Jesus era capaz de sentir em profundidade as emoções humanas. Conforme vemos nos evangelhos, Ele sentia dor, tristeza, alegria e esperança. Assim acontecia porque Ele compartilhava conosco a realidade da alma humana.

Finalmente, Jesus possuía um corpo humano, igual ao nosso. O sangue corria nas suas veias enquanto um coração o bombeava, sustentando assim a vida humana em seu corpo. Hebreus 2.14-18 claramente indica este fato. Nessa poderosa passagem, temos que a existência corpórea de Jesus na Terra possibilitou recebermos a expiação. Por ser Ele carne e sangue, sua morte poderia derrotar a morte e nos levar a Deus. O corpo de Jesus, na encarnação, era exatamente como o de cada um de nós. Seu corpo humano foi colocado num túmulo depois da sua morte (Mc 15.43-47).

O peso cumulativo dessas passagens leva-nos à conclusão de que Jesus era plenamente humano. Era igual a nós em todos os aspectos, exceto que nunca pecou. Ao rebaixar-se à posição de servo, como homem, Ele pôde reunir condições para nos redimir do pecado e da maldição da Lei.

A divindade de Jesus

Os escritores do Novo Testamento atribuem divindade a Jesus em vários textos importantes. Em João 1.1, Jesus, como o Verbo, existia como o próprio Deus. E difícil imaginar uma afirmação mais clara do que esta acerca da divindade de Cristo. Baseada na linguagem de Gênesis 1.1, eleva Jesus à ordem eterna de existência com o Pai.

Em João 8.58, Jesus assevera, a respeito de si mesmo, uma existência contínua como a do Pai. “EU SOU” é a bem conhecida revelação que Deus fez de si mesmo a Moisés na sarça ardente (Ex 3.14). Ao dizer: “Eu sou”, Jesus estava colocando à disposição o conhecimento da sua divindade, para quem quisesse crer.

Paulo também oferece um testemunho claro da divindade de Jesus: “Haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.5-7). O texto grego emprega uma linguagem muito enfática. O particípio huparchõn é mais forte que eimi, além de se constituir em uma declaração dramática do estado da existência de Cristo. A declaração hos en morphê theou huparchõn (v. 6a) deve ser interpretada como “que, existindo em forma de Deus“. A declaração einai isa theõ (v. 6b) deve ser interpretada como “ser igual a Deus“. Paulo nos informa aqui a existência de Jesus em um estado de igualdade com Deus. Mesmo assim, Ele não ficou agarrado a esse estado, mas abriu mão dele, tornando-se um servo e morrendo na cruz por nós.

As informações do Novo Testamento a respeito desse assunto levam-nos a reconhecer que Jesus não deixou de ser Deus durante a encarnação. Pelo contrário, abriu mão apenas do exercício independente dos atributos divinos. Ele ainda era plena Deidade no seu próprio ser, mas cumpriu o que parece ter sido imposto pela encarnação: limitações humanas reais, não artificiais.

A união hipostática

Claramente, a Bíblia apresenta amplas evidências de suas afirmações sobre a humanidade e a divindade de Jesus. Falta, agora, estabelecer como essas duas naturezas podem coexistir em uma só Pessoa.

O Concílio de Calcedônia, que se reuniu em 451 d.C, é considerado definitivo na história da cristologia. Sendo o ponto culminante da luta contra uma longa fileira de heresias cristológicas, declarou que a fé ortodoxa no Senhor Jesus Cristo focaliza-se nas suas duas naturezas, a divina e a humana, unidas na sua Pessoa única.

O Concílio de Calcedônia tem um contexto histórico. A separação das naturezas de Jesus, proposta por Nestório, havia sido repudiada pelo Concílio de Éfeso, em 431 d.C. A harmonização entre as duas naturezas, proposta por Eutíquio, foi refutada em Calcedônia. Nesse clima de controvérsia teológica, dois escritos tiveram profunda influência sobre os resultados do Concílio da Calcedônia. O primeiro foi a carta de Cirilo a João de Antioquia e outro escrito de grande influência sobre Calcedônia foi a carta de Leão I a Flaviano de Constantinopla.

O conjunto das decisões finais de Calcedônia constitui-se num documento bastante longo. A essência da cristologia de Calcedônia pode ser apreciada na citação abaixo:

Seguindo, portanto, os santos pais, confessamos o único e mesmíssimo Filho, que é nosso Senhor Jesus Cristo, e todos concordamos em ensinar que esse mesmíssimo Filho é completo na sua divindade e completo – o mesmíssimo – na sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiro ser humano, sendo que este mesmíssimo é composto de uma alma racional e um corpo, coessencial com o Pai quanto à sua divindade, e coessencial conosco – o mesmíssimo – quanto à sua humanidade, sendo semelhante a nós em todos os aspectos menos o pecado… reconhecendo-se que Ele existe inconfundível, inalterável, indivisível e inseparavelmente em duas naturezas, posto que a diferença entre as naturezas não é destruída por causa da união, mas pelo contrário, o caráter de cada natureza é preservado e vem junto em uma só pessoa e uma só hipóstase, não dividida nem rasgada em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho.

Vemos que a natureza divina e a natureza humana estão juntas na Pessoa única de Jesus Cristo. Ao falarmos de temas qualitativamente diferentes, como o de uma natureza divina e uma humana existindo em união, devemos inevitavelmente levar a sério a questão da contradição e do paradoxo.

Ao afirmar que Cristo é Deus-homem, reunimos categorias que normalmente se negam.

Existem duas maneiras de corresponder a esse dilema. A primeira é providenciar ajustes à natureza humana de Jesus, para fazê-la encaixar logicamente com sua natureza divina. A segunda é asseverar que a união entre as duas naturezas é um paradoxo. Nesse caso, a inconsistência lógica de Deus ser homem não é resolvida.

O maior problema não é a divindade de Jesus, mas tratar sobre a sua humanidade. Duas abordagens ao problema da natureza humana de Cristo têm sido seguidas em tempos recentes. Ambas tomam por certa a veracidade da sua natureza divina, de modo que a questão passa a ser uma delineação clara da natureza humana.

Os textos bíblicos que nos forçam a levar em conta essa questão parecem ser Hebreus 2.16-18 e 4.15. Os dois textos insistem na identificação das tentações de Jesus com as nossas próprias. Tal insistência deve ser tratada com o devido respeito, ao se formular um meio de entender a humanidade de Jesus.

Pouca coisa precisa ser dita a respeito das diferenças entre a humanidade essencial (ou ideal) – conforme criada por Deus – e a humanidade existencial – experimentada pelas pessoas na vida cotidiana.

Nossa análise dos versículos bíblicos supra mencionados parecem indicar que Jesus se enquadrava nos dois aspectos ao mesmo tempo. Ele experimentou a existência linear e corpórea do homem que podia morrer, e morreu mesmo. Neste sentido, parecia viver a humanidade existencial. Ele era, ainda, impecável – e nunca houve outro ser humano assim – e foi ressuscitado pelo Pai à incorrupção. A humanidade essencial de Jesus parece ter estado presente nessas realidades. A revelação de Deus Filho na carne realmente pode ser um desafio capaz de esgotar todas as nossas tentativas de explicá-la. No entanto, para nós, é fundamental crermos que Jesus era completamente humano, semelhante a nós.

Bibliografia utilizada e sugerida

Teologia Sistemática, Uma perspectiva pentecostal. Horton, Stanley. CPAD

Teologia Sistemática, Uma perspectiva pentecostal. Romeiro, Paulo. Editora Vida