Apologético, Pensamentos

Santos desigrejados: a farsa da fé contemporânea

Religioso com a Bíblia no Peito

A questão da polarização

Se existisse polarização apenas na política, a vida seria um pouco melhor, mas infelizmente ela está inerente em inúmeras áreas sociais. E a “religião” não está imune à isso.

Vemos, por exemplo, o embate entre arminianos e calvinistas, quem os vê em debates, se assustam com tamanha rispidez de ambos os lados. Não que a divergência de ideias seja ruim, é que as ideias tem transformado as pessoas em soldados insensíveis, capazes de “matar” seu irmão, pelo simples fato de pensar diferente. É na realidade uma “guerra santa” que, sejamos sinceros, não leva à lugar algum.

As divergências se acumulam enquanto às convergências diminuem.

Ser religioso é um problema?

O que tem surgido agora é o que chamo de via alternativa, que se apresenta como isenta, imune, autossuficiente e a maior expressão de fé. Estou falando daqueles “santos desigrejados“. Eu vejo três razões pelas quais alguém se torna desigrejado:

  1. Por questões de mudança geográfica. Por exemplo, mudança de cidade. Ao chegarem em sua nova localidade de residência não conseguem encontrar uma igreja a qual se identifiquem, e como consequência ficam sem ir à igreja;
  2. Por questões de relacionamento. Quando sofrem uma decepção, frustração, traição, etc. Isso faz com que a pessoa se afaste e tome a decisão de não frequentar mais aquela igreja. Neste caso, a pessoa está fugindo de outra pessoa, mas não da igreja;
  3. Por questões hedonistas. São aqueles que se deparam com as diretrizes da instituição onde frequentam e da própria Bíblia, e estas interferem nos seus desejos de viver como bem quiserem. Se ficarem, serão exortados e ocasionalmente disciplinados, se saírem se sentirão “livres”.

É exatamente sobre esta terceira razão que desejo expor algumas opiniões.

Os “santos desigrejados“, que neste caso passarei a me referir como “hedonistas da fé“, são a ala da extrema discordância, possuem o prazer de discordar e adotam isso como modus operandi. Como forma de sustentar a sua decisão, não sabem fazer outra coisa a não ser declarar guerra.

Usam de termos, que eu chamaria de jargões hedonistas, como forma de atacar os “igrejados“, chamando-os de “religiosos“, “escravos da religiosidade“, e afins. Queria que se atentassem um pouco para a Bíblia e entendesse o que ela considera como religioso.

Ser religioso nunca foi um problema, veja o que Tiago fala em sua carta:

“Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã”.

Tiago 1.26

O problema está em ter a língua como arma letal, e não o fato de ser religioso, aliás, Tiago implicitamente está sugerindo que sejamos religiosos. O fato é, que religioso ou hedonista da fé, ambos podem ter a língua “afiada”. Ou não?

Ser religioso nunca foi o problema, veja o que está escrito em Atos 13.50:

“Mas os judeus incitaram algumas mulheres religiosas e honestas, e os principais da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fora dos seus termos.”.

Atos 13.50

Paulo e seu companheiro foram perseguidos, porque as mulheres que eram sim “religiosas” e “honestas” foram enganadas pelos judeus a incentivarem seus maridos a levantarem perseguição aos cristãos pregadores. A questão não está em ser religioso, está em ser manipulado por uma seita (Atos 26.5) sem um senso crítico baseado no Evangelho.

Ser religioso nunca foi o problema, veja, no famigerado texto de Pentecostes (Atos 2), a Bíblia registra que estavam reunidos ali homens religiosos (Atos 2.5). Se analisar o contexto, verão que o problema não está em ser religioso, mas sim em não reconhecer que aquilo era obra do Espírito Santo (Atos 2.13).

Qual é o real problema?

Mas pastor, qual o problema então? Onde você quer chegar?

Ser religioso nunca foi o problema, o real problema está em NÃO viver dignamente de acordo com religião a qual professa. Quando há divergência entre o religioso e a sua religião, costumamos chamar isso de hipocrisia. Ou seja:

o problema não está em ser religioso, o problema está em ser hipócrita.

Pr. Daniel Cochoni

Vamos partir para o cerne da reflexão. Vejamos o texto de 1 Timóteo 1.8-10:

Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina,

Quero dizer que se de um lado existem os religiosos, do outro, existem os irreligiosos. Note que o irreligioso é comparado ao homicida, ao sodomita, aos ladrões. E que está claro no texto de Paulo, que eles não são associados à graça, mas submissos à lei, isso mesmo, esses “hedonistas da fé” não estão sob a graça, estão sob a lei.

A desculpa que utilizam é que não vão à Igreja porque eles são a própria igreja.

Estão errados, primeiro porque não são a “igreja”, mas sim templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6.19), ou seja, são individualizados na questão de aperfeiçoamento da fé e santidade pela pessoa do Espírito Santo.

Segundo que a igreja é chamada de Corpo de Cristo (Efésios 4), o que significa que como corpo, estamos todos ligados, tanto na esfera vertical (com o cabeça da Igreja que é Cristo) quanto na horizontal (com os irmãos em Cristo).

Por este motivo o escritor aos Hebreus, deixa claro:

“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.”

Hebreus 10.25

A ordem, e note que aqui é imperativo, é para não deixarmos de congregar. Não importa qual o problema, qual a dificuldade, qual a “desculpa”, congregar faz parte da vida cristã.

E os hedonistas repelem a ideia de estarem juntos com outros, porque se sentem “livres” para serem o que desejam ser, mas na verdade são escravos do orgulho e da autossuficiência.

Os hedonistas repelem a ideia de estarem juntos com outros, porque sentem-se superiores aos “pecadores” da igreja e aos “manipuladores” gananciosos, mas não passam de frustrados com a falta de fé para romperem com o preconceito.

Ao analisar o comportamento dos hedonistas da fé, me deparo sempre com pessoas caluniosas e difamadoras, que não possuem nenhuma argumentação lógica para defenderem suas “teses”.

Disseminam charges e frases descontextualizadas afim de desconstruir os “religiosos” como forma de se sentirem com a razão.

Espalham os erros e as quedas dos outros, simplesmente para jogarem uma cortina de fumaça sobre suas próprias tragédias morais e espirituais.

Se esquecem de que “ai daqueles por quem vier o escândalo“, e interpretam isso de maneira equivocada. O ai não é para o “pecador”, mas para quem expõe o “pecado” de outro para todos, daquele por quem vier a notícia do “pecado”.

Que o Senhor tenha misericórdia destes hedonistas e consiga uma abertura em vossos corações endurecidos para que a graça os faça enxergar o tamanho do buraco onde se encontram.

Observação: Não estou tratando dos desigrejados que não se encontraram em outras igrejas por questões de mudança, também não estou me referindo aos que estão sem igreja por uma questão de problemas emocionais, e estão sem forças para voltar. Estou tratando aqui daqueles que saíram para viver sob a anarquia espiritual e praticarem o que bem quiserem com a dissimulada desculpa de que estão livres, quando na verdade são apenas escravos dos vossos próprios desejos (2 Pedro 2, especialmente o versículo 19 cp. Tiago 1.14-15).

E que Deus vos abençoe!!!


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About Pr. Daniel Cochoni

Pastor Daniel Cochoni, é pastor na Assembléia de Deus em Franca, ministério do Belém. Ministro do Evangelho credenciado pela Confradesp e CGADB, Life Coach, Analista Comportamental, proprietário da Evolution Coaching e Mentoring e profissional da área de Tecnologia.
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1 thought on “Santos desigrejados: a farsa da fé contemporânea

  1. Muito bom!
    Houve uma demonização da palavra Religioso assim como a palavra prosperidade. Antigamente na assembléia de Deus bem como em outras denominações era proibido prosperar, pois os irmãos “humildes” que eram dignos de graça e Misericórdia também devido ao versículo que diz que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que o rico entrar no céu.Na verdade pela massa evangélica ser de pessoas menos favorecidas quem eleva o patrimônio se sente um peixe fora d’água. Hoje o cenário mudou e surgiram outros problemas como: “Você tem que ser relevante”, pra ter voz.Pastores humildes com carros simples não aptos pra pregar. o que é totalmente errado. Também a questão dos “desigrejados” que tem aumentado também se dá devido a expansão das redes sociais e da informação através da internet, um membro não tem acesso apenas a pregação do seu pastor, mas as vezes no mesmo dia ele assiste a 4 pregações no youtube e o seu pastor local tem que competir. Antigamente o que o pastor dizia era lei, as revistas da EBD eram escritas por doutrinadores de apenas uma vertente, então temas eram “adaptados” para atender a AD por exemplo. Agora com o maior esclarecimento do povo fica difícil sentar e ouvir tantas divrgências teológicas nas igrejas. Maior parte do culto é sobre contribuição e outros pontos são agravantes. Aquelas igrejas estrelas onde os pregadores são mais preparados espiritual e teologicamente são as vezes um pouco longe das residências, nada pode justificar ficar sem congregar mas poderia dizer que existe outro grupo além dos três citados, São aqueles que tem convicção da sua fé e salvação e que congregam com menos frequência porém são aptos a participar da mesa do rei quando Ele voltar. Estes costumam não discutir na internet e também não responde a provocações pois nada pode separá-los do amor de Deus, a instituição está sim um pouco manchada, porém sabemos que não é o lugar que se deve encontrar perfeição, e que ninguém é superior ao outro. Então o que vai a igreja não é superior ao que não vai e vice versa. Porém existem pessoas que precisam se apegar a um sacerdote, precisam de apoio dos irmãos embora na igreja hoje em dia expor suas falhas é sinal de escândalo. Nesse quarto grupo que já se trata de uma grande parte dos cristãos devemos também refletir o que há de fato acontecendo para não incorrer nos erros do passado de demonizar ou criticar atitudes que realmente podem ter um sentido. Assim como era pecado no passado ter televisão e agora não é mais. Sei que terá milhares de afirmações e argumentos sobre este comentário, porém não é uma crítica apenas um olhar de um ponto de vista um pouco diferente apenas pra reflexão e não para debater.

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